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Sobre violência, nossos medos e jardins
O comemorado homo sapiens tem se tornado uma espécie de monstro sapiens
Há um processo de vulgarização da vida em curso, acelerado e próximo, cada vez mais próximo de nós. O amigo que se foi, assassinado, a amiga violentada, um parente sequestrado, o vizinho baleado, o amor abatido como uma ave de rapina. O homo sapiens tem conquistado o mundo, dominado as tecnologias, andado cada vez mais veloz, desenvolvido máquinas cada vez mais invejadas, e até mesmo criado vida – mas… quanto vale uma vida? O sentido do progresso nos entorpece a tal modo que correr é sempre necessário, produzir é sempre o foco, crescer a renda, o número de seguidores, o prestígio social, a ostentação é quase uma lei. Mas o pêndulo que força excessivamente para um lado apenas acaba arrebentando a engrenagem.
O comemorado homo sapiens tem se tornado uma espécie de monstro sapiens: o intelecto funciona, os sentimentos afloram e as estratégias são ainda mais aguçadas – mas, pra que lado está o pêndulo das ações? Na Cidade Maravilhosa, jovens que tentavam espancar um mendigo redirecionam a violência para outro rapaz, conhecido dos agressores, que acaba moído e segue para a UTI de um hospital onde lhe inserem 60 pinos no rosto. Que motivação seria essa? Dias depois, uma moradora de rua é espancada, leva socos e pontapés de meninos ricos – um deles, médico. O motivo? Um retrovisor quebrado. Quanto custa um retrovisor, diante daquela pessoa com voz, intelecto, sonhos, olhos, amores e sistema vivo semelhante ao dos meninos mimados chateados com a peça de um carro avariada? Quanto custa um carro, mesmo os mais caros?
Na balança social, a vida tem sido desvalorizada. Naquela que então foi chamada Capital da Tranquilidade, adolescentes são estupradas e mortas, homens degolados são jogados nos mangues, jovens são seqüestrados em frente de casa e executados friamente. Motivos? A ausência de respostas, se é que elas existem, potencializa a dor, amplifica o medo, cala o grito indignado de muitos.
Um dia, o pensador russo Vladimir Maiakovski escreveu: “Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
É difícil agir diante de sentimentos tão conflitantes. Revolta? Pena de morte? Mais punição? Mais policiamento? Mais armas? Mais, mais, mais? Que tal mais desapego, tolerância, educação, informação, gentileza, amor? Que tal colocarmos o foco nas crianças, para que o amanhã seja mais esperançoso? Se não acreditar nelas, em quem acreditar? Até porque, para que elas sejam melhores, precisamos ser adultos melhores, exemplos melhores. E como é difícil esse desafio. Dói ainda mais saber que não há garantias, pois mesmo aquele jardim bonito, com filhos, flores e amigos que cultivamos com tanto amor pode ser pisoteado, como alerta o poeta russo.
Ainda assim, é preferível acreditar, agir, e manter o olhar de esperança. Há uma canção sobre a fé e O Amor que provoca à reflexão, com a frase “esperar em ti é sempre caminhar”. Esperemos dias melhores, caminhando nesse sentido. Esperemos menos violência, trilhando caminhos de carinho. Esperemos mais respeito, optando pela trilha muitas vezes pedregosa da educação, do burilar um cidadão, do perceber que o sentido está na vida e todas as outras coisas são adereços fúteis e passageiros.
Sim, é extremamente piegas “apelar para o sentimentalismo”, dirão os legisladores do pensamento racional. Questões metafísicas não teriam espaço nessa sociedade tecnicista, rápida e, mesmo assim, tão frágil como sempre foi. Então pedimos a eles, enquanto não nos chegam idéias melhores, soluções para a vida. Sim, para a vida. Porque quarar as ruas com policiais durante festejos e afins é bom, mas é paliativo; fazer justiça com as próprias mãos ou buscar vingança pode até trazer alguma sensação de ‘deve cumprido’, mas não cura a dor. Deixemos um pouco de lado as garagens, as salas suntuosas, os escritórios, as coberturas. É hora de cuidar dos jardins, sobre o qual nunca deveríamos ter silenciado.
Henrique França é professor universitário, mestre em Ciência da Informação e mantém o blog #CotidianaMente
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