A nudez de Lula

Só é logicamente admissível aceitar que Lula esteve o tempo todo inocente se admitirmos, também, que o ex-presidente era ao tempo dos fatos um completo idiota

A alegação de que Lula nunca soube do mensalão – executado ali sob sua encanecida barba – nunca convenceu plenamente a ninguém. Porque é implausível que ele, chefe de Estado e Chefe de Governo, além de chefe do partido, pudesse estar alheio a tudo que se passava a sua volta. Só é logicamente admissível aceitar que Lula esteve o tempo todo inocente se admitirmos, também, que o ex-presidente era ao tempo dos fatos um completo idiota. Não me parece que Lula tenha sido, algum dia, um idiota. Pelo contrário. Eu o considero uma das mais espertas raposas políticas que este país já produziu. Só faltou nascer em Minas. Mas aí já seria pedir a Deus que desse asa a cobra.

Foi o governador Marconi Perillo quem primeiro rachou o escudo com que o mundo petista tentou imunizar o então presidente Lula, isolando-o do escândalo do mensalão. Se até o próprio delator da grande maracutáia, o deputado Roberto Jefferson, fora enfático ao excluir Lula do caso, parecia crível que Lula, de fato, estava levando bola nas costas. Ou, como Getúlio Vargas, boiando desavisado sobre um “mar de lama”. Mas a declaração de Marconi, lembrando que em certo dia alertou o presidente sobre as sinistras operações de Delúbio Soares e José Dirceu, abalou a convicção de muita gente.

Marconi pagou e vem pagando um alto preço por isso. Deste então, ele, que tinha boas relações com Lula e o petismo goiano, ganhou a eterna inimizade de ambos. Uma inimizade operante, que não se limita a mandar costurar o nome do desafeto na boca do sapo, mas que busca obsessivamente a vingança, um cabal aniquilamento do inimigo. A “CPI do Cachoeira”, sobre a qual tenho falado tantas vezes, outra coisa não é senão uma ação revanchista do petismo contra o governador goiano.  Não podendo dobrar os deuses do Olímpo, o petismo, como Juno, no verso de Virgílio, agita as potestades infernais.

Agora, outra pancada no escudo alarga a brecha. Operador do mensalão e condenado a mais de 40 anos pelo caso, o empresário Marcos Valério disse, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que entregou ao Ministério Público Federal documentos comprovando acusações feitas em seu novo depoimento, que envolvem o ex-presidente Lula no escândalo. Em resposta aos que desqualificam suas acusações, Valério afirmou que os documentos foram entregues em setembro, quando falou à Procuradoria Geral da República.

Entre os documentos, segundo a publicação, está o registro de um depósito dos R$ 98,5 mil que, de acordo com Valério, foram usados para pagamento de despesas pessoais do ex-presidente Lula na posse e no primeiro mês de seu primeiro governo. O cheque foi destinado à empresa de segurança Caso, de Freud Godoy, ex-assessor pessoal de Lula. Esse depósito já havia sido identificado pela CPI dos Correios, aberta para apurar o caso em 2005, mas na época Valério nada disse. Não há registro do que foi comprado com o dinheiro repassado. Em depoimento, Freud alegou que o recurso foi empregado em gastos com segurança da posse. Procurada, a defesa do empresário não detalhou que outros papéis foram entregues.

Lula negou veementemente. “É mentira!” – defendeu-se ele em entrevista aos jornalistas, de Paris, onde esteve para palestrar em um desses fóruns que a esquerda midiática promove para discutir como pendurar o guizo no pescoço do gato. Esperto, o Lula. Negando categoricamente a acusação, nada tem que explicar, devolvendo a Valério todo o trabalho de, como acusador, provar o que disse.

É um caso problemático. Valério tem credibilidade? A qualidade moral de Marcos Valério leva a que muitos acolham com severas reservas o que ele disse ou simplesmente não o levem a sério. O ex-presidente do PSDB, o alagoano Teotônio Villela, saiu em defesa de Lula. Roberto Jefferson, em seu blog pessoal, declarou que a atitude de Valério, fazendo uma “delação premiada”, já no apagar das luzes do processo, “é coisa de canalha”.

É forte a tentação de aceitar que esta espantosa confissão de Valério não passe de um gesto insano de um desesperado que não tem mais nada a perder, por isso mesmo buscando o inútil consolo de uma vingança impotente. Pode até ser, e talvez seja.

Mas, ainda que Valério seja o canalha de  que Jeferson falou; ainda que seja um mentiroso contumaz; ainda que seja, suponhamos, o mais baixo dos homens; ainda assim, o que ele contou tem que ser investigado e posto em pratos limpos.  Sim, porquê tudo que ele disse é, para dizer o mínimo, plausível. Ele não falou absolutamente nada que soasse absurdo. E existe um documento que é, para novamente dizer o mínimo, um início de prova. A pista deve levar a algum lugar, ou a lugar nenhum, mas é imperativo segui-la.

Dois mais dois serão sempre igual a quatro, pouco importa que quem o afirmou tenha sido o grande matemático russo Georg Cantor ou o financista mineiro Marcos Valério. Qualquer um pode verificar a veracidade dessa singela afirmação. A plausibilidade de uma afirmação é nos dá uma certeza provisória, mas não nos autoriza um julgamento definitivo. Contudo, a plausibilidade reivindica uma criteriosa apuração dos fatos. É imperativo buscar a verdade – e que cada um suporte as conseqüências de seus atos.

Lula descartou como “Mentira!” as declarações de Valério. Está no seu direito de acusado simplesmente negar e reverter ao acusador o ônus da prova. Mas ele bem que poderia, pelo menos em deferência aos milhares que lhe confiaram por oito anos a chefia da Nação, tomar a mesma atitude do governador Marconi Perillo. Quando teve seu nome envolvido no escândalo Cachoeira, o governador goiano compareceu espontaneamente perante a CPI, nem sequer esperando ser chamado. Mais: oficiou ao Ministério Público Federal solicitando ser investigado, franqueando às autoridades competentes todas as informações a que tem o legítimo direito de manter em sigilo.

Do ponto de vista político, Lula não tem outra saída. Se quiser que a Nação acredite mesmo que Valério mentiu, terá que sair daquela zona de conforto que lhe assegura a presunção constitucional de inocência e vir para o campo aberto da luta pela verdade. Terá que, espontaneamente, expor-se à mais impiedosa devassa. Terá que atravessar o mesmo deserto já palmilhado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello em situação semelhante.

Não me junto aos que têm pelo ex-presidente o ódio mais mortal que se possa conceber. Afinal, votei nele cinco vezes para presidente da República. Reconheço-lhe grandes méritos. Não acredito, porém, á luz de tudo que já veio à tona, que ele seja inocente nessa história do mensalão. Acredito, sim, que ele soubesse do que se passava, até dou de lambuja que ele ignorasse os detalhes sórdidos, mas não podia ignorar o quadro geral das operações. Ele tinha sim, acredito eu, o chamado “domínio dos fatos”. O que não sei, mas quero saber (como de resto a Nação precisa saber), é até onde vai sua responsabilidade. Qual é a extensão de sua culpa?

Não podemos aceitar a desqualificação moral de Valério como meio supostamente legítimo de exclusão de Lula. Nem podemos aceitar que a lacônica negação de Lula ponha fim à questão ou que a empurre para aquela obscuridade em que todos os gatos são pardos. Não é uma questão de capricho, mas uma necessidade terapêutica: precisamos ver a nudez do rei. Ele tem que se despir.

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