Abram o sigilo, como fez Marconi

Acredito que nenhum prefeito ou ex-prefeito que celebra ou celebrou contratos com a Delta pode se dar ao luxo de não comparecer à CPI. Seria uma grande irresponsabilidade

De forma franca e objetiva, vou direto ao assunto. Na condição de deputado membro da Comissão Parlamentar de Inqué­rito (CPI) que in­ves­tiga na Assembleia as de­nún­cias le­van­tadas pela Ope­ração Monte Carlo da Po­lícia Fe­deral, lanço publicamente um de­safio aos pre­feitos e ex-pre­feitos que contratam ou con­tra­taram com a Delta não apenas a com­pa­recer à CPI, mas a oferecer, a abrir, a es­can­carar seus si­gilos fiscal, ban­cário, te­lefô­nico, de SMS e de e-mail. E desafio que façam isso para que possam afastar quais­quer sus­peitas sobre suas con­dutas. Não há ma­neira me­lhor de responder ao clamor da po­pu­lação goiana pelo es­cla­re­ci­mento desse caso.

Esse clamor está por todos os cantos, nas ruas, nos bares, nos res­tau­rantes, nas en­ti­dades organizadas da sociedade civil, na im­prensa. O povo de Goiás quer saber, afinal, qual o tamanho da in­fluência desse es­quema, até onde ele foi e onde a sua atu­ação foi ma­lé­fica, nefasta para a vida pú­blica dos mu­ni­cí­pios, princi­pal­mente nas prin­ci­pais pre­fei­turas do Es­tado.

Chegou ao meu conhecimento que manobras de bastidores de prefeitos e ex-prefeitos do PT e PMDB vão tentar evitar que estes deponham na CPI para esclarecer contratos com a Delta. Eu não posso e nem quero acre­ditar que isso esteja realmente acontecendo. Que es­tejam manobrando para não prestar os es­cla­re­ci­mentos sobre uma in­ves­ti­gação dessa mag­ni­tude, que mexeu com a vida de toda a po­pu­lação de Goiás, apenas e tão somente porque são candidatos à re­e­leição ou apoiam seus can­di­datos nos mu­ni­cí­pios e não queiram se expor em uma sessão de de­poi­mento em CPI. Afinal, são muitos contratos com a Delta Goiás afora. Não apenas em Goi­ânia, mas em vá­rios ou­tros municípios.

A população precisa saber que pre­feitos goi­anos es­tão ma­no­brando para não com­pa­recer à comissão. Recebo essa informação com muita tris­teza. Não com­pre­endo o teor desse tipo de ma­nobra. Não é ho­nesto, muito menos ético que pes­soas ci­tadas neste es­cân­dalo queiram dri­blar a CPI. Princi­pal­mente em ano elei­toral, quando, mais do que nunca, os de­ten­tores de man­datos ele­tivos devem redobrar ainda mais o seu com­pro­misso com a trans­pa­rência e com a ido­nei­dade de seus atos.

Todas as vezes em que temos in­ves­ti­ga­ções dessa mag­ni­tude, fala-se e evoca-se o di­reito à ampla de­fesa e da pre­sunção da ino­cência. Pois as comis­sões par­la­men­tares de inquérito são justa­mente uma opor­tu­ni­dade nesse sen­tido. Um es­paço para que os ci­tados, di­reta ou indiretamente, apre­sentem suas ex­pli­ca­ções. As CPIs são uma opor­tu­ni­dade para que falem o tempo que con­si­de­rarem ne­ces­sário sobre as ques­tões le­van­tadas nas in­ves­ti­ga­ções. Afinal, quem não deve, não teme.

É importante que todos saibam que as in­ves­ti­ga­ções em Goiás e em Bra­sília são complementares. Ao final, a CPMI instalada no Con­gresso po­derá nos re­passar o re­sul­tado de suas apurações e vice-versa. A CPMI está se encar­re­gando de in­ves­tigar o que? De in­ves­tigar as ra­mi­fi­ca­ções do esquema apon­tado pela Ope­ração Monte Carlo no go­verno fe­deral e no governo dos Es­tados. Por isso que­braram o sigilo da Delta na­ci­onal: para saber se houve al­guma ir­re­gu­la­ri­dade, algum desvio, nos con­tratos do Pro­grama de Ace­le­ração do Cres­ci­mento (PAC) e nas li­ci­ta­ções e obras realizadas nos Estados. E não apenas em Goiás e em Bra­sília. Ao que­brarem o si­gilo da Delta na­ci­onal, os parla­men­tares po­derão, necessariamente, des­co­brir se foi feito algo de er­rado em ou­tros Estados, como no Rio de Ja­neiro. Pois bem, aqui em Goiás nós pre­ci­samos justamente complementar essa apu­ração, es­ten­dendo a in­ves­ti­gação para os contratos ce­le­brados entre a Delta e as pre­fei­turas.

Por isso acre­dito que ne­nhum pre­feito ou ex-pre­feito que ce­lebra ou ce­le­brou con­tratos com a Delta pode se dar ao luxo de não com­pa­recer à CPI. Seria uma grande ir­res­pon­sa­bi­li­dade, seria uma ma­ni­fes­tação de des­caso com a po­pu­lação, que es­pera ver o di­nheiro de seus im­postos aplicado em obras, na edu­cação, na saúde, no meio am­bi­ente, no lazer.

Dentre os pre­feitos ou ex-pre­feitos, creio que o ex-pre­feito Iris Re­zende (PMDB) de­veria ser o pri­meiro a se apre­sentar para prestar os esclarecimentos sobre os con­tratos da pre­fei­tura com a Delta. Afinal, foi na gestão dele que a Delta se ins­talou em Goiás e, a partir de Goi­ânia, ampliou sua par­ti­ci­pação em contratos pú­blicos pelo Es­tado.

Iris é, por assim dizer, pai da Delta em Goiás. Foi pelas mãos dele que a em­presa venceu as pri­meiras li­ci­ta­ções e chegou a ter dez contratos com a Pre­fei­tura de Goi­ânia, ava­li­ados em cen­tenas de mi­lhões de reais, com inúmeros adi­tivos. As obras estão aí para todos verem: os vi­a­dutos da T-63, por exemplo. Isso sem en­trar no mé­rito da qua­li­dade das obras, que também podem ser ava­li­adas pelos pró­prios goianienses. Além disso, tem o episódio en­vol­vendo o ex-di­retor de li­ci­ta­ções da Pre­fei­tura de Goi­ânia, no pri­meiro ano do se­gundo man­dato de Iris na Ca­pital, o Fábio Pas­sa­glia. As investiga­ções mostraram que ele manteve re­la­ções fi­nan­ceiras sus­peitas com um dos representantes de Carlos Ca­cho­eira no mercado. Pas­sa­glia nego­ciou com la­ranjas de Ca­cho­eira, a bem da ver­dade. Eu per­gunto: é possível não es­cla­recer isso para a CPI, é pos­sível não explicar isso para a CPI?

Se me perguntam se acre­dito que Iris Re­zende es­taria dis­posto a fazer isso em pleno ano eleitoral, respondo: e por que não faria? Iris foi pre­feito de Goi­ânia três vezes, foi se­nador, governador de Goiás por duas vezes, tentou ser go­ver­nador mais ou­tras duas vezes, foi mi­nistro duas vezes, deputado es­ta­dual, ve­re­ador pela ca­pital. Ou seja, o que ele tem a temer?

Mais uma vez, Iris de­veria se­guir o exemplo do go­ver­nador Mar­coni Pe­rillo, que foi à CPI do Congresso e res­pondeu a todos os ques­ti­o­na­mentos, não ter­gi­versou em ne­nhuma res­posta, apresentou documentos, provas e ainda abriu seus si­gilos.

Para não di­zerem que estou fa­lando apenas do go­ver­nador que apoio, eu cito o exemplo do gover­nador do Dis­trito Fe­deral, o Ag­nelo Queiroz. Ele também foi à CPI e falou. Ficou lá, assim como Mar­coni, quase dez horas, respondendo às per­guntas dos par­la­men­tares. Esse é o com­por­ta­mento, o com­por­ta­mento do gover­nador Marconi, que a po­pu­lação de Goiás e do Brasil es­pera de seus go­ver­nantes.

Como ex-pre­feito, Iris Re­zende tem na CPI da As­sem­bleia o es­paço apro­priado para ex­plicar as relações da gestão dele com a Delta. E, francamente, todos sabem disso, ele tem muito a dizer sobre esses contratos. Há muitos in­dí­cios, trans­cri­ções de gra­va­ções, gra­va­ções mesmo, afirmações da Polícia Fe­deral que pre­cisam ser es­cla­re­cidos sobre esses con­tratos com a Delta, não apenas os fir­mados pela Pre­fei­tura de Goi­ânia, mas também todos aqueles fir­mados por outras pre­fei­turas goi­anas.

Quem fugir da CPI ficará sob evidente suspeita de que tem algo a temer.

Túlio Isac (PSDB) é deputado estadual em Goiás e integrante da CPI na Assembleia Legislativa que investiga possível envolvimento de autoridades e políticos goianos com a contravenção e o crime organizado, além da atuação das empresas Delta e Gerplan no Estado

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