Assim é o poder

Cachoeira e o desembargador; Pagot e a CPI do B; PT e Maluf, Rebelo e ruralistas; Maia e a verba; o diretor e o vereador

I – Em português, Excelência, por favor

Os juízes devem se preocupar apenas em julgar de acordo com a Constituição, com as leis, com os fatos e com sua consciência. Não devem se submeter às pressões, nem de poderosos, nem da imprensa, nem da dita opinião pública. Nem mesmo da família. Sobretudo, não devem ter vergonha de suas sentenças, suas decisões e seus votos. Por isso, não devem se furtar a justificá-los e explicá-los publicamente, em linguagem acessível ao cidadão que não lida com o Direito.

São aguardadas ansiosamente, assim, as explicações e justificativas do desembargador federal Tourinho Neto para suas sucessivas decisões a favor de Carlos Cachoeira e sua turma. Explicando e justificando o desembargador poderá afastar as suspeitas que, inevitavelmente, pairam sobre o tema.

II – A semana até que pode ficar interessante

Senadores e deputados, como Pedro Simon e Miro Teixeira, articulam uma sessão extra-CPI para ouvir o que tem a dizer o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot. Como se sabe, a CPI, por maioria de votos, decidiu que não quer ouvir Pagot, que já deu declarações que deixam mal a Delta, o PT e o PSDB.

Como deputados e senadores se autoconcederam férias de 12 dias, usando como pretexto público (e furado) a Rio +20 e pretexto mais ou menos velado (e indecente) as festas juninas, se essa reunião realmente acontecer e Pagot falar o que se espera que fale na “CPI do B”, alguns políticos gostarão de estar longe de Brasília.

III – Festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição

Muita gente anda com saudades do tempo em que partidos de esquerda eram de esquerda e partidos de direita eram de direita. Era mais fácil escolher em quem votar e já se sabia mais ou menos que alianças seriam formadas para sustentar o governo.
Para os que viveram outras épocas, PT, PSB e Paulo Maluf na mesma coligação é muito estranho. PCdoB apoiando Gabriel Chalita é um pouco esquisito.

O sinal dos novos tempos é o ministro Aldo Rebelo, do PCdoB, ser o mais aplaudido em um encontro de parlamentares que defendem os interesses do agronegócio e dos grandes empresários rurais. Mas, como disse o camarada Mao, a prática é o critério da verdade.

IV – Horas-extras, mas só as extras

O presidente da Câmara, Marco Maia, voltou de uma inútil e dispendiosa viagem à China decidido a aumentar de R$ 60 mil para R$ 75 mil mensais a chamada verba de gabinete, destinada à contratação, pelos deputados, de até 25 assessores pessoais. Um dos argumentos de Maia é correto: os assessores dos gabinetes estão sem reajuste salarial há quatro anos e sem o aumento da verba não é possível aumentar suas remunerações. Ninguém merece ficar com o mesmo salário durante quatro anos.

A questão de fundo, porém, não é essa. É que os deputados não precisam de 25 assessores, número absurdo sob qualquer análise. Muitos desses funcionários trabalham como cabos eleitorais dos deputados em seus estados, e alguns sequer trabalham. A revista meiaum, de Brasília, mostrou que até garotas de programa são contratadas com a verba de gabinete e só aparecem na Câmara para bater o ponto que lhes assegura horas-extras. O expediente delas, na verdade, é em kits e motéis.

Seis ou sete funcionários para cada gabinete já está bom demais. E todos trabalhando – literalmente, claro — em Brasília, pois os contribuintes nada têm a ver com as pessoas que os deputados contratam em seus estados para fazer política para eles.

V – Há dinheiro dá para todos

A corrupção no Brasil pode ser avaliada por amostragem. Ou alguém acha que apenas no município de São Paulo é que há um funcionário que libera licenças para empresas e fica milionário e um vereador que “vende” o relatório de uma CPI?

Não é difícil imaginar que há milhares de outros como esses dois agindo impunemente em todos os 5564 municípios brasileiros e no Distrito Federal. Os dois de São Paulo deram o azar de serem pegos.  

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