Fernando Henrique

Devo reconhecer que a presidente Dilma teve gesto construtivo ao desinterditar o debate para setores que estavam longe dele, quando fez o reconhecimento público do papel que FHC prestou à estabilidade pública brasileira

Durante oito anos, o Presidente Fernando Henrique Cardoso foi demonizado, desconstruído, com pouquíssimas vozes de apoio efetivo a ele, entre as quais a minha. Criaram uma resistência muito grande ao nome desse ilustre brasileiro. Só agora, num fenômeno agradavelmente repentino, ele próprio assiste ao momento em que tudo isso é superado e, finalmente, surge o reconhecimento nacional.

Imagine o tamanho que o Presidente Fernando Henrique terá na história se, ainda agora, vivo, com o Governo recém-concluído, já há esse clima de consagração. Vejo alguns fatores que contribuíram para isso.

Primeiro, a postura como ex-presidente, discreto, recolhido, consciente da posição que lhe cabe, contrastando com as atitudes espalhafatosas de seu sucessor.

Com esse debate sério sobre a questão das drogas, lastreado em estudo profundo patrocinado pela instituição que leva seu nome, o Instituto Fernando Henrique Cardoso, conseguiu o milagre de se apresentar positivamente para uma juventude que cresceu ouvindo falar mal dele, baseada em que o principal trabalho do governo Lula foi desconstruí-lo, numa atitude pequena, mesquinha.

Neste blog, todos sabem que sou profundamente crítico do governo atual, que considero inerte, inapetente, mas devo reconhecer que a presidente Dilma teve gesto construtivo ao desinterditar o debate para setores que estavam longe dele, quando fez o reconhecimento público do papel que FHC prestou à estabilidade pública brasileira.

Eu vi um homem ressurgir das cinzas. Outra noite, no programa Altas Horas, quando o apresentador Serginho Groisman perguntou se ele não concorreria outra vez à Presidência da República, foi ovacionado pela juventude para, a seguir, dizer que não, consciente de ter cumprido seu papel.

Fica para todos nós a lição do quanto vale a persistência, o equilíbrio, a decência, a postura de um verdadeiro estadista.

Fernando Henrique ganha, enfim, o reconhecimento que sempre mereceu.

 

*Diplomata e ex-líder do PSDB no Senado.

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