Fim de partida

Os senadores que cassaram Demóstenes Torres sabem muito bem que, hoje, nenhum deles tem qualquer motivo para estar ali

“Nunca ninguém pensou de modo tão tortuoso como nós”
(Fim de partida, Samuel Beckett, tradução Fábio de Souza Andrade)

Estamos progredindo, insinuaram os senadores ao cassar o mandato do colega Demóstenes Torres. E nem mesmo eles acreditaram. Os parlamentares que expulsaram Demóstenes sabem muito bem que, hoje, nenhum deles tem qualquer motivo para estar ali.

É fim de partida. Restam poucas peças se mexendo no tabuleiro, mas o jogo não termina. O relator, o revisor, e o autor do pedido de cassação encenaram à perfeição seus papéis, levando parte do público a acreditar que o mais importante para o Senado, naquele momento, era o que ocorria no palco, e não o que rola atrás da cortina.

Antes os males do parlamento se resumissem a tentativas de burlar as regras, pois ao menos seria possível dizer que alguns senadores cumprem seu papel. Mas, vítima das próprias limitações e do estrangulamento do Executivo, o Senado se transformou em mero aprovador de medidas provisórias – menor até que a Câmara, onde as bancadas ruralista e evangélica ainda fazem seu barulho.

É a decadência total, e nem uma cassação foi capaz de mascará-la. Poucas vezes as palavras de abertura do Fim de partida, do Samuel Beckett, fizeram tanto sentido: “Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando”.

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