247 – A liderança do PT pretende lançar, no fim do segundo turno das eleições, um manifesto que representará o que o partido “entende do julgamento” do chamado “mensalão”, que ocorre no Supremo Tribunal Federal (STF) e já condenou quatro integrantes da sigla. “O partido vai se manifestar formalmente sobre o que entende do julgamento”, afirmou o presidente nacional do partido, Rui Falcão.
Até agora, o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o ex-presidente do PT, José Genoino, o ex-tesoureiro da legenda, Delúbio Soares, e o deputado federal João Paulo Cunha foram condenados pelo Supremo na Ação Penal 470. “O andar do julgamento no Supremo tem corrido junto com as eleições. Mas ainda vamos ver o que entendemos com o final do julgamento”, acrescentou Falcão.
Para a colunista Dora Kramer, do jornal O Estado de S.Paulo, se manifestar após as eleições é uma estratégia do partido que revela “destreza”. Em artigo, Dora afirma que José Dirceu “percebe que o PT corre o risco de afugentar o eleitorado se hostilizar o Supremo Tribunal Federal nesse momento”. Por isso o líder petista teria, em sua opinião, focado seu discurso nas eleições logo após sua condenação.
Para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a resposta para o julgamento do “mensalão” será dada nas urnas. Lula já fez reclamações sobre a realização, pela corte suprema, de um “julgamento político”. Em reunião na última sexta-feira 12, a orientação do partido foi a de que não se aumentasse o tom das críticas, a fim de não contaminar a eleição. Especialmente por parte da presidente Dilma Rousseff, que deve passar longe do debate.
Leia abaixo o artigo de Dora Kramer publicado nesta terça-feira:
Pele de cordeiro
Logo após ser condenado, José Dirceu entrou de mansinho em cena na reunião do diretório nacional do PT.
Aconselhou os companheiros a deixar de lado, por enquanto, o julgamento do mensalão e concentrar seus afazeres na eleição, notadamente em São Paulo.
Tanta amenidade causou certo estranhamento. Não houve a esperada ordem à reação aguerrida contra as sentenças nem um chamamento a ataques ao “tribunal de exceção”, como levavam a crer declarações de simpatizantes e militantes desde que se desenhou a condenação.
Dirceu limitou-se a fazer dois discretos discursos orientando o partido a adiar quaisquer atos de contra-ataque até a conclusão das eleições municipais. “Agora o que interessa é o segundo turno, vamos às ruas, à luta”, conclamou.
Nada há de estranho na atitude que, antes, revela destreza e estratégia.
Dirceu percebe que o PT corre o risco de afugentar o eleitorado se hostilizar o Supremo Tribunal Federal nesse momento. Se contestar com virulência, desconfiança e desqualificação uma instituição que vem sendo celebrada como instrumento de redenção à ancestral impunidade e lançar suspeitas sobre ministros tratados nas ruas como heróis, flertará como perigo de despertar sentimentos fortes de antipetismo adormecido.
Pode levar o eleitor a perceber o PT como aquele anterior à Carta aos Brasileiros que, com suas posições agressivas, radicais e sectárias, perdeu três eleições presidenciais.
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