Sobre militância e boatos

São duas as armas que restam aos candidatos nos últimos dias das eleições para prefeito: a militância e os boatos. Uma é instrumento legal e legítimo; a outra, recurso desesperado, antiético e criminoso

São duas as armas que restam aos candidatos nos últimos dias das eleições para prefeito: a militância e os boatos. Uma, a militância, é instrumento legal e legítimo na democracia; a outra, a boataria, é recurso desesperado e antiético; é prática  criminosa. O candidato, ou seus correligionários, que espalham boatos às vésperas da eleição já sinalizam aos eleitores as práticas que adotariam se eleitos.

Em tudo assemelhadas aos boatos as falsas denúncias, também conhecidas como “bala de prata”, bem como as promessas de campanha feitas às vésperas do pleito tão “espetaculares” quanto inverossímeis, pois irrealizáveis, também  se constituem em recurso muito utilizado pelos maus políticos. É necessário, faz parte do lento e progressivo aprendizado  para a nossa democracia, ainda tão incipiente, que alertemos e eduquemos os eleitores para esses ardis ou”últimos golpes” dos candidatos oportunistas.

Os partidos que dispõem de militância partidária ideológica já estão, com mais fervor a partir de hoje, ganhando as ruas com suas vestes e bandeiras coloridas. A chamada boca de urna é proibida por lei – nunca é demasiado recordar. Porém nos dias que antecedem o pleito, bem como durante toda a campanha, é legítimo e até saudável o envolvimento dos eleitores na apresentação e discussão/debate das propostas e dos programas de governo dos candidatos, que, por sinal, nem sempre são apresentados, posto que nem sempre existem – como, aliás, deveriam, de modo concreto.

Mas é preciso que em verdade estejamos todos atentos aos ditames básicos da civilidade: a indulgência e a convivência com o outro e com sua maneira distinta de enxergar o mundo.  É  princípio basilar da democracia o respeito à diferença. Portanto, a tolerância  deve ser  regra. E, deve-se, a todo custo procurar evitar replicar as inevitáveis provocações dos antagonistas,  pois estas, de resto, certamente ocorrerão.

Existe a chamada militância paga, que é simbolizada por aquele homem ou mulher que vemos nas grandes vias empunhando a bandeira do candidato de forma, digamos, profissional – quase sempre, com um indisfarçável ar de enfado. Está ainda por se comprovar a eficácia desse instrumento – além de gerar empregos temporários muito bem-vindos à população mais pobre. Mas ninguém deve ou pode vender o seu voto – para evitar abusos dessa natureza  a Justiça Eleitoral estará vigilante e  a legislação prevê punição para esses casos.

Existe também a já citada militância ideológica, mais própria, no Brasil de hoje, aos partidos de esquerda – uma vez que os defensores do pensamento mais à direita têm, via de regra, um certo pudor ou constrangimento em se manifestar publicamente nas ruas [vale ressaltar que o contrário se dá  na internet, provavelmente devido à segurança e conforto do anonimato]. Mas nem sempre foi assim e isso não ocorre, por exemplo, em outras democracias, onde a participação do cidadão se dá de forma mais efetiva.

O Partido dos Trabalhadores é, certamente, o mais conhecido  pela força e desprendimento de sua militância. Alguns analistas políticos atribuem à militância do PT a passagem do candidato Fernando Haddad ao segundo turno da disputadíssima eleição desse ano na cidade de São Paulo. As pesquisas, até uma semana antes da eleição,  sugeriam  que tanto Celso Russomano quanto José Serra ou o próprio  Haddad poderiam disputar o 2º turno. Curiosamente, no início da disputa Russomano e Serra  estavam na frente com larga dianteira e, segundo noticiado amplamente na imprensa, haviam selado um acordo de “não agressão” para o 1º turno e um pré-acordo de apoio mútuo para o 2º escrutínio.  A estratégia de “não agressão” dos dois candidatos naufragou com o livre correr dos acontecimentos – o candidato Serra sentiu, de perto, o espectro da ameaça de não chegar lá e mudou de estratégia.  E, como se viu depois, pode ter sido de fato a famosa militância do PT, que saiu às ruas, um dos fatores determinantes para o crescimento de Haddad no final do páreo.

É essa mesma militância que agora alimenta as esperanças desse partido sair vencedor em praças importantes como Salvador, Fortaleza ,Campinas, Diadema, Cuiabá, Cascavel só para citar alguns exemplos – uma vez que seus  candidatos  estão pouco atrás nas últimas sondagens, ou tecnicamente empatados. Mas, e esse é um dado também a se considerar, as pesquisas eleitorais são muito questionadas – geralmente, mas não somente,  pelos candidatos desfavorecidos por essas pesquisas. E esse é, sem dúvida,  aspecto relevante  a ser considerado. Portanto, mesmo com larga dianteira à frente em São Paulo, a militância do PT deverá comparecer em massa às ruas com suas camisas e bandeiras vermelhas.

Cabe-nos, na condição de jornalistas, alertar, dar a necessária temperança às suas legítimas ansiedades de militantes,  e prevenir os eleitores com relação a esses boatos e denúncias de última hora. E também fazer um último esforço para educar e estimular a que haja cordialidade e tolerância por parte dos militantes de todos os partidos. Que ganhe as eleições os mais virtuosos homens públicos e os melhores administradores  para cuidar das cidades e dos seus cidadãos.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Cortes 247

Participe da discussão

Ao vivo

Inscreva-se

Cobertura contínua dos principais assuntos do dia.

Hoje na TV 247 3 de Julho
Acompanhe as
últimas notícias