As mortes de Thomas Malthus e as mortes de Jair Bolsonaro
Os limites de uma economia administrada por interesses parasitários do sistema financeiro e a lógica obtusa do presidente da República sobre as questões sociais de um modo geral compõem a essência do seu projeto de poder
A marca superior a dez milhões de casos de Covid-19, se aproximando dos 250 mil mortos, com média diária acima de mil mortos há um mês, chama a atenção e faz pensar. O Brasil é uma referência negativa no mundo, inclusive no que diz respeito ao tratamento da doença. Enquanto isso, o presidente e seu governo seguem desprezando a gravidade da situação; a vacinação não ganha velocidade e o país corre o risco de ver a pandemia fazer muitos estragos na vida dos brasileiros e na economia.
É inevitável constatar que essa marca decorre, em grande medida, da forma como o governo Bolsonaro encara a situação. Sabe-se muito bem que a preocupação com o destino do povo sujeito às graves consequências da pandemia não faz parte da sua forma de encarar o problema. Como o presidente da República tem dito repetidamente, tudo o que está acontecendo é uma realidade sobre a qual não há o que fazer.
Seu negacionismo, parte fundante da sua ideologia obscurantista, é a antítese dos caminhos indicados pela ciência, os únicos capazes de deter a propagação do vírus e buscar soluções para a sua erradicação. Entre essas duas opões, Bolsonaro fica com a obtusidade que reedita, de certa forma, a tese de Thomas Malthus sobre dar livre curso às epidemias e a guerras para equilibrar a proporção aritmética da produção de alimentos com o crescimento geométrico da população.
Agora, de acordo com o presidente, a pandemia deve ter livre curso para que a economia funcione. O mantra de que o Estado não tem recursos para prover prevenções básicas serve de pretexto a uma ação deliberada de ignorar as consequências da pandemia. A dicotomia entre morrer de fome ou de Covid-19 é cruel por si mesma, mas ainda mais grave por serem opções sobretudo para os trabalhadores. Os setores da população que não dependem do trabalho também são atingidos pela negligência do governo, mas quem vive do trabalho forma a proporção maior dos atingidos.
Por esse viés é também possível divisar o perfil autoritário do bolsonarismo. Ele recusa a mediação entre a diversidade da sociedade para formar um consenso mínimo sobre como enfrentar essa situação grave porque sabe que sua visão obscurantista seria de pronto descartada. Um mínimo de luz da ciência – e mesmo de bom senso – sobre esse comportamento liquida qualquer possibilidade de sua continuidade. Essa constatação serve tanto para a pandemia quanto para a economia.
O grande desafio é a soma de forças capaz de impedir o prosseguimento dessa postura irresponsável e desumana do governo Bolsonaro. Os limites de uma economia administrada por interesses parasitários do sistema financeiro e a lógica obtusa do presidente da República sobre as questões sociais de um modo geral compõem a essência do seu projeto de poder. Trata-se de um governo sem a menor chance de gerar consensos mínimos capazes de dar ao país um rumo para a superação dessa tragédia social o quanto antes e que precisa, urgentemente, de um ponto final.
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