A influência da narrativa israelense no discurso internacional sobre Gaza
Alguns dos pontos levantados por autoridades internacionais mostram-se quase alinhados com a narrativa israelense, que vem sendo incorporada aos discursos
Desde que a entidade sionista-estadunidense retomou sua guerra de extermínio em Gaza, em 18 de março, a questão palestina voltou à vanguarda do Conselho de Segurança, de autoridades internacionais relevantes e de outros organismos internacionais, especialmente aqueles voltados para assuntos humanitários. O Conselho de Segurança da ONU realizou três sessões em uma única semana. A primeira concentrou-se na situação humanitária, com um discurso de Tom Fletcher, o coordenador humanitário. A segunda abordou a questão dos prisioneiros israelenses, com a participação de Elie Sharabi, ex-prisioneiro libertado em uma troca, convidado para a sessão. Khaled Khiari, secretário-geral adjunto para o Oriente Médio, Ásia e Pacífico, falou em nome do Secretariado. A terceira sessão tratou dos assentamentos e das práticas israelenses em Gaza e na Cisjordânia, com Sigrid Kaag, coordenadora especial interina para o Processo de Paz no Oriente Médio, representando o Secretariado.
Alguns dos pontos levantados por autoridades internacionais mostram-se quase alinhados com a narrativa israelense, que vem sendo incorporada aos discursos dessas autoridades, seja por convicção, seja por medo. Observa-se que a comunidade internacional passou a conviver com os massacres, e suas declarações não estão à altura da gravidade dos acontecimentos. De fato, a narrativa israelense começou a ganhar espaço nos pronunciamentos de representantes estatais e autoridades internacionais, mesmo que os massacres ocorridos neste segundo capítulo da guerra de extermínio sejam ainda mais horrendos que os do primeiro.
A narrativa da entidade sionista
Há três pontos constantes no discurso israelense que se infiltram, explícita ou implicitamente, nas declarações de autoridades internacionais e, em grande medida, nas falas da maioria dos representantes estatais — especialmente dos hipócritas Estados europeus:
1. O conflito parece começar em 7 de outubro. Ninguém está autorizado a discutir o que ocorreu antes dessa data. A frase repetida por todas as autoridades internacionais é: "Nada justifica o ataque terrorista de 7 de outubro." O secretário-geral António Guterres mencionou, apenas uma vez, em discurso no Conselho de Segurança em 24 de outubro de 2023: "Os eventos de 7 de outubro não surgiram do nada." Isso gerou um enorme rebuliço; ele foi acusado de parcialidade e de estar fora da realidade, e o embaixador israelense pediu sua renúncia. Foi a primeira e última vez que Guterres abordou o contexto anterior. Desde então, passou a repetir, em todos os discursos, declarações e comunicados, a frase: "Nada justifica os eventos horríveis ou a operação terrorista de 7 de outubro," tratando-a como ponto de partida absoluto, sem qualquer menção à ocupação, aos assentamentos, às incursões, à judaização, à violência, aos assassinatos, às demolições de casas, aos deslocamentos e às quatro guerras anteriores travadas contra Gaza.
2. O direito de Israel à autodefesa é o cerne da retórica dos países ocidentais e de algumas autoridades internacionais. Essa afirmação fornece justificativa direta ou indireta para as atrocidades cometidas por Israel. Ninguém questiona o conceito de direito à autodefesa de um povo sob ocupação — e a sua inaplicabilidade nesse contexto. Um povo ocupado tem o direito de resistir à ocupação colonial. Como pode um Estado ocupante defender sua ocupação ilegal, enquanto o povo ocupado não pode defender sua própria existência ameaçada, não apenas em palavras, mas também por ações?
3. A guerra só terminará com a derrota total do Hamas e dos movimentos de resistência, tidos como terroristas que usam civis como escudos humanos. Assim, Israel se exime de qualquer responsabilidade por vítimas civis. Defende-se que não haverá qualquer papel para o Hamas no futuro de Gaza. Quem viola essa narrativa é acusado de apoiar o terrorismo, de ser antissemita — ou ambos. A entidade, portanto, trata todos os palestinos como culpados de apoiar o terrorismo ou o antissemitismo.
O ator está sempre ausente, a reação sempre descreve o orador, não o evento, e os números estão sempre ausentes. É isso o que Israel quer.
Nesta breve introdução, apresentarei apenas três exemplos.
Declaração do Secretário-Geral sobre o massacre em Gaza: As pessoas acordaram na manhã de terça-feira, 18 de março, diante de um massacre horrível. O bombardeio continuou por horas, sem interrupção, em várias partes da Faixa de Gaza, matando aproximadamente 406 pessoas e ferindo mais de 500. Como o Secretário-Geral reagiu a esse massacre? Com uma declaração chocante que não correspondeu às expectativas.
A declaração afirmava que o Secretário-Geral expressou seu “choque com os ataques aéreos israelenses em Gaza, que custaram a vida de um número significativo de civis. Ele pede fortemente respeito ao cessar-fogo, a retomada irrestrita da ajuda humanitária e a libertação incondicional dos reféns restantes”.
A declaração não condenou o massacre cometido por Israel, em flagrante violação do acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, Egito e Catar. Tudo o que foi mencionado foi o “choque” — uma palavra que não descreve o evento em si, mas a reação do orador diante dele. Não foram utilizadas palavras como “condenação”, “denúncia” ou “responsabilização” de Israel, tampouco houve exigência de investigação sobre a escala da matança de civis, cujo número ultrapassou 170 crianças nesse episódio.
Essa resposta representa, de fato, o peso moral e legal do Gabinete do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas?
Declaração de Khaled Khiari:
Durante uma sessão do Conselho de Segurança dedicada à discussão sobre os prisioneiros israelenses — com a presença de um ex-prisioneiro — Khiari, que já foi embaixador em um país árabe, limitou-se a derramar lágrimas pela tragédia dos prisioneiros israelenses, sem mencionar os milhares de palestinos que definham em prisões e centros de detenção israelenses. Pelo menos 28 deles foram martirizados sob tortura ou por negligência médica. Entre esses presos há médicos, professores, funcionários públicos, trabalhadores humanitários, defensores dos direitos humanos, além de centenas de mulheres e crianças.
O funcionário da ONU afirmou que, até o momento, ao menos 59 reféns — vivos e mortos — permanecem sob custódia do Hamas e de outras facções armadas palestinas, observando que os depoimentos dos libertados forneceram “relatos horríveis de sua detenção, incluindo tortura física e psicológica, violência sexual e privações", indicando que os que ficaram para trás continuam sofrendo em condições extremas e vivenciam traumas desde o sequestro.
Khiari não se esqueceu de condenar a exibição pública dos caixões dos mortos — “incluindo os de duas crianças mortas na prisão” — durante uma cerimônia que ele qualificou como horrível e em violação ao direito internacional. O ponto central para Israel é a menção à violência sexual, ainda sem comprovação. Enquanto isso, um relatório abrangente já foi emitido sobre a violência e os abusos sexuais sofridos por prisioneiras palestinas.
Em uma declaração conjunta emitida em 19 de março, a Conselheira Especial Interina para a Prevenção do Genocídio, Virginia Gamba, e o Conselheiro Especial para a Responsabilidade de Proteger, Mo Blecker, expressaram grande preocupação com os relatos de ataques aéreos israelenses em larga escala na Faixa de Gaza.
Esses ataques representam a primeira grande ação militar na área desde o cessar-fogo de dois meses atrás, com relatos iniciais indicando que centenas de pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas.
As duas autoridades responsáveis por essa grande operação de declaração — cuja origem é desconhecida — demonstraram ansiedade. Por que uma declaração conjunta? O evento não justificaria duas declarações separadas? A situação em Gaza foi descrita como uma "escalada de violência". O massacre, que tirou a vida de mais de 900 palestinos — a maioria mulheres e crianças — foi reduzido, por essas duas autoridades, à palavra “violência”, um termo que, por natureza, sugere reciprocidade.
Em seguida, os dois oficiais alertaram que "esses desenvolvimentos pressagiam uma escalada perturbadora e dramática de violência, com consequências irreversíveis. É essencial dar prioridade urgente às necessidades comuns do processo de paz, que integre aspectos de prevenção e proteção". Eles também expressaram profunda preocupação com o agravamento da crise humanitária em Gaza e repetiram a expressão do Secretário-Geral: “profundo choque com esses acontecimentos”.
O ator está sempre ausente; a reação descreve o orador, não o evento — e varia da ansiedade ao choque —, enquanto os números permanecem ausentes. É isso que Israel quer.
A culpa recai sobre os embaixadores árabes, que não destacam esses fatos em suas declarações rotineiras, limitadas a denunciar, condenar, exigir, convocar e afirmar — aguardando apenas uma nova sessão para repetir o mesmo discurso.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
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