TV 247 logo
    Paulo Henrique Arantes avatar

    Paulo Henrique Arantes

    Jornalista há quase quatro décadas, é autor de “Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil”. https://noticiariocomentado.com/

    292 artigos

    HOME > blog

    Democracia e perigos fictícios

    O terceiro governo Lula luta para resistir à mesma estratégia que derrubou João Goulart há 60 anos

    19.03.2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia de Inauguração da Barragem de Oiticica, em Jucurutu - RN. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

    Foi um perigo fictício - o risco comunista - que motivou o golpe militar em 1964 e legou ao Brasil 21 anos de escuridão. João Goulart nunca fora comunista, antes um getulista bastante light. Remonta àquela época a estratégia dos golpistas de inculcar o medo no povo, um medo baseado na repetição persistente de mentiras, ao agrado daqueles que, ontem, esbravejavam contra coisas como reforma agrária e aumento real do salário mínimo. Comunistas havia no Brasil de então, mas sua volúpia armada só emergiu em resposta ao Estado opressor.

    Mudaram as moscas golpistas, mas a matéria irradiadora de insuportável odor continua a mesma.

    Formalmente redemocratizado, o país demonstrou maturidade ao elaborar uma Constituição verdadeiramente cidadã, atenta às suas mazelas sociais e aos riscos de involução reacionária.  A esquerda brasileira jamais arquitetou golpes contra a democracia incipiente, armando-se da Carta, e só dela, em suas contendas, em defesa da saúde e da educação universais, da distribuição da renda e das terras improdutivas, da preservação do patrimônio público, da soberania nacional. Pecados cometeu, mas nunca relativizou seu apreço pela democracia.

    No Brasil redemocratizado emergiu Fernando Collor, ungido em 1989 pela elite golpista de 1964. Parecia incrível, mas Collor, além de sinalizar o neoliberalismo em moda, ainda bradava máximas anticomunistas como “nossa bandeira jamais será vermelha”. Seu adversário vermelho, o PT, sempre esteve a léguas de distância do “perigoso” comunismo. Como era ele próprio uma grande mentira, o “caçador de marajás” sucumbiu.

    O Plano Real, sob Itamar Franco, e os governos de Fernando Henrique Cardoso não foram bombardeados pelos estrategistas da mentira e do medo. O segundo, duradouro, até pôs em prática algumas medidas na direção do avanço social, mas seus mandatos deram-se em linha com as ordens neoliberais globais. Até hoje, FHC é idolatrado pelo mercado financeiro, onde residem boa parte das mentes saudosas do período autoritário. Austeridade fiscal e fascismo andam de mãos dadas, a primeira a serviço do segundo e vice-versa, como explica o excelente livro “A ordem do capital”, de Clara E. Mattei.

    Até Lula 2003, com a importante lufada redemocratizadora do governo Sarney, o poder veio sendo exercido no Brasil pela mesma elite que apoiou - e financiou - o regime dos militares.  Para horror da turba endinheirada, os governos Lula terminaram com aprovação superior a 80%.  O fato de o Brasil todo sair melhor daqueles oito anos pouco importou para os donos da bufunfa: eles queriam voltar a ser donos do poder. Uma presidenta honesta e ousada como Dilma Rousseff, mas nada carismática, era tudo de que a elite do atraso precisava para se apossar do governo. E assim aconteceu, Michel Temer à frente como símbolo máximo do golpismo.

    Impedir a volta de Lula tornou-se o mais importante. De mentira em mentira, de farsa em farsa - destaque para a Operação Lava Jato, farsa das farsas -, o ex-presidente aprovado pela quase totalidade da população foi tirado do jogo político, abrindo-se a brecha para ascensão da figura mais nefasta em toda a História da política brasileira, Jair Bolsonaro. Com ele subiram partícipes da ditadura, não só simpatizantes dela. Como ele a mentira, ora alcunhada fake news, tornou-se uma forma de governo, sua principal característica, sem a qual nada lhe restaria.

    A volta de Lula ao poder merece artigo a parte. 

    A constatação histórica, que motiva estas linhas, é que o terceiro governo do petista luta para resistir à mesma estratégia que derrubou João Goulart há 60 anos e que sustentou Bolsonaro enquanto pôde: a mentira forjada e emanada das elites para disseminar o medo. A começar pelo terror econômico, quando se menciona um tal “risco fiscal” num cenário de crescimento vigoroso, pleno emprego e busca concreta de déficit zero.

    Ao lado de fakes grosseiras e risíveis, surgem outras um pouco mais elaboradas, sempre perigosas. Pregar no Exterior que o Brasil vive um regime de exceção faz parte do rol fake mais esdrúxulo, já a taxação do PIX foi uma mentira exemplar. Agora, tenta-se enraizar a ideia de que empresários deixarão o país se seus dividendos forem tributados, como pretende o anteprojeto de lei do governo que isenta do Imposto de Renda quem recebe até 5 mil reais mensais. Alguém precisa avisar aos empresários fujões que eles terão de ir para a Estônia ou para a Letônia, únicos países que não taxam dividendos, além do Brasil.

    Lutar por democracia é combater a mentira, desde sempre.

    * Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

    ❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

    ✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.

    iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

    Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista: