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      Rodrigo Vianna

      Jornalista desde 1990. Passou por Folha, TV Cultura, Globo e Record; e hoje apresenta o "Boa Noite 247". Vencedor dos Prêmios Vladimir Herzog e Embratel de Jornalismo, é também Mestre em História Social pela USP. Blogueiro, integra a direção do Centro de Estudos Barão de Itararé.

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      Desordem do capital gerou tragédia na Serra do Mar. Estado é solução, não causa do problema

      "A culpa pela tragédia no litoral não é do poder público, mas da lógica escravocrata que perdura sob o capitalismo selvagem brasileiro", diz Rodrigo Vianna

      (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

      Na imprensa comercial, só se fala nisso: o "poder público" falhou no caso da tragédia do litoral norte de São Paulo. 

      Ah, como é gostoso ter o Estado como espantalho, para culpar por tudo. Bem, de certa forma é até um avanço as manchetes não dizerem simplesmente que foi um "desastre natural".

      Avançamos até o ponto de observar que a chuva, sim, é um fenômeno natural (que poder ter sido potencializada pelas mudanças climáticas provocadas pelo hipercapitalismo), mas o fato de existirem milhares de pessoas penduradas nas encostas do litoral norte paulista não é propriamente um fenômeno da natureza.

      Fico pensando o que o governo de São Paulo ou a Prefeitura de São Sebastião deveriam ter feito diante do alerta de que viria uma chuva de consequências perigosas: retirar 5 mil pessoas às pressas de casa? E levar pra onde? Com que estrutura?

      Quando se diz que a responsabilidade pelas mortes é do poder público, esconde-se a lógica da ocupação da terra no Brasil. No Sudeste do país, desde que a escravidão acabou, os mais pobres são empurrados para as encostas. Isso é assim no Rio, em Petrópolis, em Angra dos Reis. E é assim no rico litoral norte de São Paulo.

      Os pobres estão ali porque há emprego por perto: nas pousadas, nos restaurantes e nas casas dos ricos - que ficam na área plana bem perto da praia. 

      O Brasil tem terra de sobra no interior - ocupada por boi e monocultura. O agronegócio utiliza milhões de hectares, gera divisas na exportação de soja e carne. Mas não gera emprego. O interior próspero do agro é um deserto humano.

      O trabalho - quando existe - está nas megacidades e perto do litoral, onde os pobres vivem amontados na periferia ou pendurados nas encostas. É a lógica absurda do capital. O mercado não vai resolver isso. 

      Precisamos esperar uma "revolução" pra isso mudar? Ou o demonizado "poder público" poderia intervir, mesmo sob o capitalismo? Sim, poderia, produzindo estoque de terra, e de casas - em áreas planas.

      A culpa pela tragédia no litoral não é do poder público, mas da lógica escravocrata que perdura sob o capitalismo selvagem brasileiro. A solução, essa sim, pode vir do Estado.

      Os mais ricos se emocionam com a tragédia, recolhem alimentos e roupas e isso alivia a culpa. Mas teriam um ataque apoplético se alguém propusesse a mudança radical na lógica rentista que produz morte e ocupação desordenada do solo.

      Na hora de uma tragédia como a que vimos na Serra do Mar, só o Estado pode organizar o apoio aos desabrigados: nas escolas e ginásios de esportes, com policiais e equipamentos militares.

      É do Estado também que poderia vir a prevenção. O Estado é solução e não causa da tragédia - provocada pelas chuvas e pela desordem capitalista.    

      * Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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