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      Monica Hirst

      Monica Hirst é historiadora, especializada em política internacional

      7 artigos

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      Mais um porrete do que uma doutrina

      Doutrina Monroe ressurge no século XXI como base da geopolítica trumpista e amplia ambições dos EUA sobre o Panamá, Groenlândia e o Ártico

      Bandeira dos Estados Unidos (Foto: Lucas Jackson/Reuters)

      Em 2023 a Doutrina Monroe completou os seus duzentos anos, o que, mais do que justificar o apagar de duas centenas de velinhas, desencadeou o acender de algumas novas. Um instrumento da diplomacia americana que legitimou impulsos e ações intervencionistas na América Latina e Caribe uma e outra vez, esta doutrina foi aplicada com a mira posta em diferentes “intrusos” ao longo da história.

      Como bem disse Reginaldo Nasser, no texto publicado na revista Nueva Sociedad (n.308) em 2023, essa doutrina, cunhada pelo presidente James Monroe, nasceu em concomitância com os processos de independência dos países latino-americanos “(....) e seu objetivo foi frustrar qualquer possível avanço recolonizador no continente por parte da Grande Aliança, o alinhamento conversador europeu comprometido com a sustentação da ordem e do status quo”. Com o tempo, este propósito foi se alterando, à medida que a mão intervencionista americana se tornou um sinônimo da manutenção da ordem e primazia no contexto interamericano. Detalhe não menor foi a utilização da nomenclatura de Hemisfério Ocidental como sinônimo do espaço geográfico de projeção desta mesma doutrina.A sequência dos chamados intrusos, ao longo dos dois séculos de vida da Doutrina, acompanhou a história da política externa dos Estados Unidos: primeiro as potências europeias, depois os países do eixo - especialmente a Alemanha do terceiro reich -, logo a União Soviética, por alguns anos o terrorismo internacional e finalmente a China. Também ao longo da história o que era um escudo legitimador de ações que acompanhava as práticas gananciosas de apropriação territorial, econômica e/ou política expansionistas se converteu num instrumento por trás da ideia de área de influência, replicada por potências rivais como uma fórmula eficaz para assegurar a estabilidade do sistema internacional. Está por demais dizer que o menos importante passou a ser a soberania dos Estados cercados pela lógica do toma-la-da-cá.

      O enquadramento da América Latina e do Caribe na construção da hegemonia americana a partir do segundo pós-guerra foi facilitado por um uso irrestrito da Doutrina Monroe. Seu sucesso durante a Guerra Fria permitiu sua continuidade discreta durante as duas décadas seguintes, apesar dos galopes acelerados da retração hegemônica dos Estados Unidos. O que se deseja sublinhar é de que se bem seja certo que durante várias décadas houve um casamento de conveniência entre a Doutrina Monroe e a hegemonia americana, um não deve ser confundido com o outro. O primeiro representa um instrumento retórico do qual se lançou mão para alicerçar um projeto de poder e o segundo um complexo processo de economia política internacional.

      Existem diferentes maneiras de aterrizar estas ponderações no cenário atual da política internacional dos Estados Unidos em modo Donald Trump. Sugere-se o prisma da geopolítica trumpista. Com dez semanas de governo, a proposta MAGA (Make America Great Again) não apenas espanou o pó da Doutrina Monroe, mas recuperou a sua “verdadeira” abrangência territorial. Já durante os anos da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos haviam recorrido à Doutrina Monroe para justificar sua projeção na zona do Ártico, especialmente sobre a Groenlândia. Um estudo recente sobre o valor geopolítico da ilha, de autoria de John Cody Mosbey, recupera informações sobre este fato em vinculação com negociações entre os EUA e a Grã-Bretanha frente ao cenário da ocupação alemã da Dinamarca, que era a proprietária de plenos direitos sobre a Groenlândia. Mais do que uma curiosidade histórica, este é um episódio que mostra os antecedentes das ações e pretensões atuais do governo Trump sobre a Groenlândia.

      Um mesmo impulso expansionista almeja assegurar, em tacadas complementares, a possessão do canal do Panamá, do Golfo do México e da Groenlândia. Todos pertencem ao Hemisfério Ocidental, o espaço de projeção imediata e “natural” do poder dos EUA. A urgência de que seja dado um novo salto em matéria de alcance estratégico da capacidade naval do país deve assegurar pleno acesso, exploração econômica e controle político sobre todos os países e territórios que pertencem a este espaço. Naturalmente, os estímulos por trás de cada movimento guardam sua especificidade em função de motivações estratégicas e percepções de futuro que fundamentam a determinação de Trump e sua equipe. Cabe mencionar a importância de retirar a China do páreo na administração do fluxo de comércio que utiliza o Canal do Panamá e o valor militar e geoeconômico do Ártico para melhorar o posicionamento americano no século XXI frente a seus competidores russos e chineses.

      Ao mesmo tempo que altamente preocupante, não deixa de ser uma novidade para a nossa região saber que somos companheiros em matéria de Doutrina Monroe dos groenlandeses e por tabela dos dinamarqueses (já que estes detêm as rédeas políticas e jurídicas que controlam a super ilha do Ártico). Do outro lado do Atlântico, a União Europeia já vem se mobilizando para atuar como uma só voz frente ao expansionismo territorial de Trump. Ainda não vemos reações, e muito menos ações do coletivo latino-americano e caribenho nesta mesma direção. Também não é certo que assim ocorrerá.

      * Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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