O filme "Guerra Civil" e Donald Trump: o espelho implacável de uma distopia estadunidense anunciada
Impossível assistir ao filme sem traçar paralelos com Donald Trump, cuja retórica divisiva e desprezo pela democracia ecoam como um prelúdio para o caos
Hollywood sempre teve uma obsessão quase mórbida por retratar catástrofes que começam nos Estados Unidos, como se o país fosse o epicentro do apocalipse. Desde o enigmático “Arrival” (2016), passando pelo icônico “Independence Day” (1996), até o satírico “Marte Ataca!” (1996), a ameaça de invasões alienígenas ou desastres globais invariavelmente coloca os EUA no centro do colapso mundial. Mesmo em obras como “O Inferno de Dante” (1997) e “O Dia Depois de Amanhã” (2004), onde mudanças climáticas desencadeiam eventos extremos, o protagonismo estadunidense é inescapável, evocando uma Roma moderna que parece clamar por sua própria destruição.
No entanto, “Guerra Civil” eleva essa tradição a um patamar ainda mais bizarro e potencialmente factível. O filme abandona as metáforas grandiosas e abraça uma narrativa visceralmente realista, pintando um retrato sombrio de um país fragmentado por um presidente autocrático, xenofóbico e segregacionista. A obra não apenas flerta com a distopia; ela a incorpora de forma tão crua que as fronteiras entre ficção e realidade se tornam indistinguíveis. É impossível assistir ao filme sem traçar paralelos com o governo de Donald Trump, cuja retórica divisiva e desprezo pelas normas democráticas ecoam como um prelúdio para o caos retratado na tela.
O contexto sociopolítico amplifica a tensão do filme. A proliferação de armas nos Estados Unidos, combinada com um líder que incita as massas mais hostis, cria um barril de pólvora prestes a explodir. Além disso, “Guerra Civil” aborda com maestria a negligência histórica enfrentada pelos veteranos de guerra. Esses homens e mulheres, celebrados como heróis em discursos vazios, frequentemente enfrentam abandono e marginalização ao retornarem à vida civil. O filme expõe as feridas abertas de uma sociedade que glorifica o sacrifício militar, mas falha em oferecer suporte básico aos que serviram.
Outro tema abordado de forma contundente pelo filme é a alarmante violência interna que assola a sociedade estadunidense. Com índices que superam os registrados em outros países desenvolvidos, essa realidade reflete um tecido social erodido por profundas desigualdades e conflitos latentes. A banalização da violência como ferramenta de resolução de disputas, somada à ampla disponibilidade de armas de fogo, agrava a situação, transformando desavenças cotidianas em tragédias devastadoras. A obra não hesita em expor as falhas estruturais de um sistema incapaz de conter a escalada dessa crise, revelando sua fragilidade e ineficiência de maneira implacável.
Em essência, “Guerra Civil” rompe as barreiras do entretenimento e se firma como uma obra arrebatadora e profundamente provocativa. Longe de ser apenas um grito de socorro, é uma denúncia feroz que não hesita em explorar as entranhas de uma sociedade prestes a sucumbir. O filme pulveriza as ilusões do "sonho estadunidense" com uma precisão brutal, expondo uma realidade que há muito tempo deixou de inspirar para se tornar o retrato cruel de um pesadelo coletivo. Com uma narrativa corajosa e implacável, o filme desmascara os alicerces frágeis de um sistema que não apenas fracassou em preservar seus valores fundamentais, como também os sacrificou em prol de interesses egoístas, precipitando sua população em um abismo de desespero e desilusão.
Sob o olhar atento de uma sociedade global cada vez mais instável, o avanço incessante de potências como a China coloca em evidência a fragilidade de um capitalismo estadunidense que implode por suas próprias contradições. A crescente desigualdade social, longe de ser um mero inconveniente, alimenta a revolta e potencializa as fissuras já existentes. Paralelamente, “Guerra Civil” entrelaça esse cenário internacional com a violência doméstica (interna), o armamentismo desenfreado e o desencanto corrosivo dos veteranos de guerra, compondo uma narrativa que não apenas denuncia, mas também confronta o espectador com verdades desconcertantes e inescapáveis.
No clímax de sua mensagem, o filme reverbera como um trovão, ecoando um aviso categórico: uma sociedade imersa em ódio, polarização e abandono está inexoravelmente condenada ao colapso. “Guerra Civil” transcende os limites da tela e se transforma em um espelho implacável, um chamado intransigente para encarar o inevitável. É uma obra que não apenas exige atenção, mas a toma sem piedade, agarrando o espectador pela alma e o arrastando para dentro de um convite cruel e urgente à reflexão.
Sinopse - Em um futuro próximo, os Estados Unidos mergulham em uma guerra civil devastadora que fragmenta o país. A narrativa acompanha uma equipe de jornalistas que se arrisca ao viajar pelas regiões mais perigosas para documentar a verdade e as histórias de sobreviventes. Liderados por Wagner Moura, eles enfrentam não apenas os horrores do conflito, mas também dilemas éticos, alianças improváveis e desafios pessoais. Entre tensão e esperança, o grupo descobre até onde a humanidade pode chegar em tempos de destruição e o poder da resiliência em meio ao caos.
- Título original: Civil War | Ano de Produção: 2024 | EUA e Grã-Bretanha
- Direção: Alex Garland
- Roteiro: Alex Garland
- Elenco: Wagner Moura, Kirsten Dunst, Nick Offerman, Cailee Spaeny
- Duração: 109 minutos
- Distribuição: Diamond Films
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