O Lumpemproletariado digital e os novos párias sociais
A crescente automação, longe de ser uma solução, é uma manifestação do sistema capitalista em seu estágio mais desumano
Trump, em sua posse, ladeado de caporegimes do mundo digital, anunciou “eficiência governamental” e prosperidade. Porém, é necessário ser bastante ingênuo para crer que bilionários sedentos de poder e influência estejam interessados em favorecer a sociedade e não apenas a si mesmos.
Na transição do atual modelo de trabalho presencial para o remoto, os bilionários do setor tecnológico têm a sua própria agenda e interesses, e se valem de toda a sua influência política para aumentar a dependência de suas plataformas, expandir a automação, enfraquecer sindicatos, contratar globalmente e monitorar e constranger governos, autoridades e funcionários públicos, agindo sempre para moldar regulamentações favoráveis, evitar restrições e impostos sobre as novas tecnologias, numa estratégia evidente e calculada para maximizar seus lucros e controle.
A automação e a inteligência artificial reduziram drasticamente a necessidade de trabalho físico, criando um novo "lumpemproletariado”, formado por pessoas marginalizadas, sem acesso a formação adequada, e com poucas opções de sobrevivência, o que resultará num colapso social sem precedentes na história da humanidade.
O avanço da robótica e da inteligência artificial já substitui uma série de empregos físicos. Estima-se que até 2030, entre 400 e 800 milhões de empregos serão automatizados, representando até 30% da força total de trabalho do mundo. As funções afetadas incluem tanto o setor industrial quanto áreas como transporte, serviços e logística. Caminhões autônomos e sistemas de IA no atendimento ao cliente já estão em operação, eliminando milhões de vagas de empregos. Os novos postos de trabalho exigem habilidades muito mais especializadas e técnicas, que a maioria da força de trabalho atual não possui, o que produz uma cisão entre aqueles que têm acesso à educação uma especializada e treinamento avançado e os que ficam para trás, resultando em uma crescente, profunda e crônica desigualdade social.
A renda gerada pelas novas tecnologias se concentra nas mãos das grandes corporações e na dos donos do capital tecnológico, como os proprietários das BigTechs, enquanto uma parcela crescente da população fica desempregada ou com ocupações sub-remuneradas e de "baixo valor agregado", segundo a avaliação produtivista, depravada e cruel dos operadores da "nova economia" digital.
O "lumpemproletariado" é a classe social mais desprovida de recursos e de meios de produção, constituída pelos párias da economia, pelos inteiramente dispensáveis, não empregáveis, portadores de habilidades obsoletas e incapazes de se adaptar rapidamente às exigências de um mundo altamente automatizado e virtualizado. Sua impossibilidade de reintegração no mercado de trabalho, é fruto do descarte perverso de todo um contingente excluído da dinâmica econômica e social.
Recentemente, em meio à pandemia de COVID-19, as 10 pessoas mais ricas do mundo viram sua riqueza crescer em mais de US$ 540 bilhões, enquanto 160 milhões de pessoas caíam abaixo da linha da pobreza, o que reflete a concentração de riqueza exacerbada por tecnologias disruptivas, que possibilitam e potencializam a exploração remota.
Com a crescente automação, o lucro obtido por poucas empresas tecnológicas aumentou exponencialmente, enquanto os salários dos trabalhadores estagnaram ou diminuíram.
O interesse de bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos em colonizar o espaço é, em parte, uma tentativa de escapar das tensões que o modelo ultraliberal digital gera cada vez mais. O "Project Mars", de Musk, e os planos da "Blue Origin", de Bezos, refletem a visão distópica de um futuro em que as elites possam se isolar do colapso social que elas mesmas já produzem e preveem. Musk diz que estabelecer colônias em Marte ajudaria a preservar a humanidade, oferecendo um "plano B" para a sobrevivência da "espécie", especialmente, claro, a da sua própria. Tais iniciativas também são uma forma de garantir a continuidade do status quo, em que a maior parte da população continua a sofrer as consequências do desemprego tecnológico e da desigualdade, enquanto as elites digitais se protegem em refúgios remotos e inacessíveis para a maioria.
O Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU do ano de 2020 sugeriu que a automação sem um sistema de redistribuição de renda resultará em tensões sociais insustentáveis e numa crescente polarização política.
A automação e a IA, longe de serem "soluções", são apenas ferramentas que os capitalistas digitais usam para intensificar a exploração do trabalho. São o meio para aumentar a taxa de mais-valia dos empregadores, já que a IA e a robótica podem substituir o trabalho físico, mas o valor gerado por essas máquinas ainda é apropriado por quem detém os meios de produção. Em vez de libertar os trabalhadores, a automação torna a exploração ainda mais radical, já que um número cada vez maior de trabalhadores se torna obsoleto enquanto uma quantidade reduzida de capitalistas fatura cada vez mais com as novas tecnologias.
O lumpemproletariado atual, alienado, desprovido de consciência de classe, marginalizado e refém das bolhas digitais de direita, emergiu da transição do antigo modo de produção para o atual. A automação massiva e a falta de empregos sustentáveis criaram esse novo lumpemproletariado, com a diferença de que ele não é composto apenas de pessoas sem trabalho físico, mas também pelas vítimas da desindustrialização das economias e da subordinação da humanidade ao capital financeiro globalizado.
A IA e robótica são novas expressões do mesmo capitalismo neoliberal e rentista, que busca maximizar lucros às custas da exploração do trabalho humano e da concentração de riqueza, num modelo que continua a propiciar a desumanização e a marginalização de grandes parcelas da população, transformando pessoas em meros instrumentos de produção ou, no caso da automação, em itens totalmente descartáveis, num cenário onde apenas uma pequena elite se beneficia radicalmente das inovações digitais, enquanto as massas não têm acesso a trabalho ou dignidade.
A crescente automação, longe de ser uma solução, é uma manifestação do sistema capitalista em seu estágio mais desumano.
Trabalhadores de todas as áreas, desde aqueles dos setores industrial e de serviços e até de profissões intelectuais, serão cada vez mais substituídos por tecnologias automatizadas, o que gerará uma exclusão social em uma escala nunca vista antes, com centenas de milhões, de pessoas fora do mercado de trabalho e sem acesso a fontes de sustento.
A situação de exclusão social criará uma crescente polarização entre os que controlam as novas tecnologias e as vastas massas de indivíduos descartáveis, produzindo uma classe de desempregados permanentes que viverá à margem da sociedade.
O lumpemproletariado digital, esse novo grupo composto por pessoas sem habilidades, sem perspectivas de inserção no mercado de trabalho e sem formação que possa reverter sua situação, tem a sua condição piorada pela falta de consciência política e incompreensão do contexto econômico, o que dificulta a sua mobilização para reivindicar seus direitos, tornando-o ainda mais vulnerável a exploração e manipulação.
A centralização do poder nas mãos de um número cada vez menor de bilionários e corporações transnacionais resultará em um estado de vigilância permanente, onde liberdades civis serão restringidas em nome da segurança e do controle social, com a plutocracia digital e rentista se tornando não apenas dona da produção, mas também a detentora de todo poder político, moldando as legislações e as estratégias econômicas para atender apenas aos seus interesses diretos.
Nesse cenário de crescente desigualdade, o papel do Estado se tornará ainda mais ambíguo. Enquanto políticas neoliberais enfraquecem ou eliminam proteções sociais, alguns governos tentarão implementar medidas paliativas, como a renda básica universal, para conter revoltas e mitigar os impactos do desemprego em massa. No entanto, sem uma redistribuição real do poder econômico e produtivo, tais soluções serão apenas mecanismos temporários para manter aliviar a tensão e manter a ordem, sem alterar a estrutura que perpetua a exclusão.
Além disso, a digitalização extrema e a dependência de algoritmos para a alocação de recursos e oportunidades reforçarão uma dinâmica perversa de "meritocracia algorítmica", a ilusão criada pelos donos das BigTechs para manter e ampliar seus lucros estratosféricos.
Ao invés de inclusão, as plataformas digitais consolidarão ainda mais a exclusão, determinando quem é "empregável" com base em históricos de dados, comportamento online e avaliações automatizadas que só reproduzem preconceitos sistêmicos. Os que não se encaixam nesses parâmetros tecnológicos são relegados a um limbo digital, onde sua existência econômica se torna irrelevante para o novo sistema produtivo.
A falta de perspectivas concretas de ascensão social e o isolamento gerado pela precarização do trabalho resultarão em níveis alarmantes de depressão, ansiedade e outros transtornos mentais. Todo esse sofrimento, por sua vez, será explorado pelo próprio sistema que o gera, com indústrias voltadas para oferecer escapismo digital, desde jogos e redes sociais até o metaverso, funcionando como formas de anestesiar a angústia e evitar que o desespero se transforme em revolta organizada. É a “soma” digital do "Admirável Mundo Novo" de Musk, Bezos et caterva.
Diante desse panorama, a resistência ao modelo ultraliberal digital precisa encontrar novos meios de organização. Se no passado os sindicatos desempenharam um papel fundamental na luta pelos direitos trabalhistas, no presente, a fragmentação do trabalho e a dispersão das novas formas de exploração exigem estratégias inéditas. A construção de redes solidárias, cooperativas digitais e alternativas ao controle das megacorporações são providências essenciais para que os trabalhadores não se tornem meros espectadores de sua própria obsolescência laboral e desaparecimento econômico.
O desafio atual e urgente é a capacidade de questionar a lógica da automação desenfreada e de propor modelos em que a tecnologia sirva ao bem comum, e não apenas à acumulação privada. Sem isso, o lumpemproletariado digital deixará de ser apenas uma classe marginalizada para se tornar a maioria da população mundial, um exército de esquecidos, mantidos à margem por uma elite que, em sua busca insaciável pelo lucro, acabará por destruir as próprias bases de sustentação da sociedade.
O capitalismo é inviável porque é um sistema econômico que devora seus próprios fundamentos, assim como um vírus que entra no organismo, explora suas células para se multiplicar em progressão geométrica e, ao final, condena o próprio corpo hospedeiro e, com ele, a si mesmo.
O capitalismo digital é como todos os outros, suicida, pois prioriza a maximização de lucros acima de qualquer limite social, ambiental ou ético. Ele exaure todos os recursos disponíveis, explora radicalmente a força de trabalho e desestrutura serviços públicos básico e essenciais. No curto prazo, pode parecer um modelo de sucesso, assim como um vírus pode se espalhar rapidamente sem encontrar resistência imediata. Mas, ao destruir os sistemas que garantem sua própria reprodução — a saúde da economia, a estabilidade social e a sustentabilidade do planeta —, ele também se condena. A exclusão, a precarização radical do trabalho e a concentração absurda de riqueza, reduzem o poder de consumo da própria população que mantém o sistema, criando as desigualdades insustentáveis, colapso econômico e crises políticas irreconciliáveis que, no fim das contas, acabarão por devorar todo o organismo social, como um vírus que, sem perceber, destrói o corpo que o sustenta.
A concentração de riqueza e poder nas mãos da plutocracia tecnológica não é apenas uma ameaça econômica, mas uma condenação histórica da humanidade à servidão digital. O novo lumpemproletariado tecnológico, alijado do processo produtivo e alienado pela manipulação informacional, não consiste somente num sintoma do capitalismo tardio, mas na sua consequência lógica e previsível.
Sem uma ruptura estrutural e a reivindicação da tecnologia como bem comum, a sociedade se fragmentará em dois mundos antagônicos: o dos que detêm o conhecimento e os meios de produção digital e o dos que são considerados excedentes descartáveis. Mas a história não é determinada apenas pelos que acumulam poder. O despertar da consciência coletiva, a luta por novas formas de organização econômica e o questionamento do monopólio tecnológico são imperativos para impedir que a era digital se transforme no último estágio da desigualdade humana.
Se a passividade prevalecer, o lumpemproletariado digital será apenas a primeira vítima de um sistema que, ao desumanizar os trabalhadores, também condena sua própria viabilidade.
A questão que resta é se seremos sujeitos da história ou meros dados descartáveis no banco de algoritmos das elites digitais.
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