O off de Brizola e a Operação Condor
Antonio Augusto Fontes relembra bastidores de entrevista com Leonel Brizola em 1982 e revela alerta do líder sobre a Operação Condor
O dia de sol no Rio de Janeiro já estava começando a chegar ao fim, quando o fotógrafo Antonio Augusto Fontes deixou a redação da Istoé para acompanhar o chefe da sucursal da revista no Rio, o saudoso jornalista Mauricio Dias, que nos deixou em 2024, numa entrevista com Leonel Brizola. O ano era 1982. O ex-governador gaúcho, cassado pela Ditadura Militar no Golpe de 1964, retornara ao Brasil havia dois anos, após um exílio de 15 anos imposto a ele pelos militares. A pauta principal da entrevista era a candidatura de Brizola a governador do estado do Rio de Janeiro.
Antonio lembra-se como hoje. Os dois pararam o carro na rua Doutor Julio Otoni, no bairro de Santa Teresa, e entraram num casarão amplo, que funcionaria como comitê de campanha. O líder trabalhista brasileiro os recebeu com seu modo tranquilo e gentil. Se instalaram em uma sala espaçosa, com duas grandes janelas com vista para a mata, por onde entrava uma luz propícia para o trabalho fotográfico. Começou a entrevista. O jornalista Mauricio Dias inquiria Brizola sobre os planos dele para o Rio de Janeiro, sobre a situação política do Brasil, que ainda vivia sob a Ditadura Militar que Brizola tanto combateu.
Antonio sempre teve o perfil de trabalhar quase imperceptível e ali estava interessado em captar um gesto, uma articulação facial de Brizola que rendesse a foto de capa da matéria. Além do talento profissional, contava com uma câmera Pentax e uma lente de 50 milímetros. Brizola ajudou no trabalho de Antonio. Enquanto defendia suas ideias e respondia aos questionamentos de Mauricio, o líder trabalhista gesticulou, apontou o dedo, franziu o cenho, sorriu. Seja qual for a manchete, Antonio tinha material para ilustrar a entrevista. Com isso deu sua missão por cumprida e aguardou o final do diálogo. Pronto, entrevista finalizada, ambos já se aprontando para sair, quando Brizola pega no braço de Mauricio e diz: “Já acabamos a entrevista, agora eu vou te contar uma informação em off”, disse ele.
Mauricio demonstrou interesse. Com o acúmulo no jornalismo, sabia que era bem comum o lead da entrevista aparecer já no final, nos acréscimos do contato com a fonte. Mas consentiu em não publicar o que ouviria a seguir e sentou-se. Antonio apenas continuou a acompanhar sem se manifestar. E então Brizola começou a contar como se tornou um dos alvos da Operação Condor, uma aliança clandestina firmada entre as ditaduras militares da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, entre os anos 1970 e 1980, com o objetivo de reprimir, perseguir, sequestrar e assassinar as principais lideranças políticas da região, considerados "subversivos".
"Eu fui alertado por alguns amigos militares do Uruguai que o regime militar brasileiro estava interessado na minha morte", disse. Brizola contou à dupla de repórteres que a prometida abertura para a redemocratização só aconteceria depois de eliminados os principais líderes políticos daquele momento. Os três principais líderes da Frente Ampla, um movimento de resistência ao Regime militar de 1964, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, haviam morrido em circunstâncias no mínimo suspeitas. Os três líderes da Frente Ampla morreram em datas muito próximas - Juscelino em agosto de 1976, vítima de acidente de carro; João Goulart em dezembro de 1976, vítima de parada cardíaca; e Carlos Lacerda em maio de 1977, vítima de infarto. Nunca foi comprovada a conexão entre as três mortes. No entanto, a Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reabriu em fevereiro deste ano um inquérito para apurar as circunstâncias da morte de JK. Com os três líderes mortos, Brizola era um “cabra marcado para morrer”.
Impassível, Antonio escutou o líder trabalhista contar que deixou o Uruguai em 1977 e surpreendeu a todos ao pedir asilo político nos Estados Unidos, onde encontrou apoio na política de defesa dos direitos humanos do governo de Jimmy Carter (1977-1981). Por ironia do destino, dezoito anos antes, em 1961, Brizola era monitorado pelos agentes da CIA por liderar o que ficou conhecido como a Rede da Legalidade, uma operação de resistência militar e civil após a queda de Jânio Quadros para garantir que João Goulart assumisse como presidente do Brasil. Esta medida retardou por dois anos o Golpe de 1964.
Documentos da CIA desclassificados recentemente pelo governo dos Estados Unidos atestam a vigilância estadunidense sobre Brizola: "Durante a semana de 27 de agosto, o presidente comunista da China, Mao Tsé-Tung, e o primeiro-ministro Fidel Castro de Cuba ofereceram apoio material, incluindo ‘voluntários’, a Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, que liderava a luta no Brasil para garantir a sucessão à presidência do vice-presidente João Goulart após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Brizola não aceitou a oferta, embora tenha apreciado o apoio moral, porque não quis ‘criar um assunto internacional’ na crise política do Brasil", diz o documento tornado público pela CIA. Brizola permaneceu nos Estados Unidos até pouco antes do seu retorno ao Brasil em 1979, com a aprovação da Lei da Anistia.
De lá para cá, a Ditadura foi definhando paulatinamente, enquanto Leonel Brizola seguiu vivíssimo. Foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, continuou fazendo história, foi novamente eleito governador fluminense em 1991, disputou a presidência da República em 1989 e 1994, e como vice-presidente ao lado de Lula em 1998, impôs a maior derrota a Roberto Marinho com o antológico direito de resposta lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, e desde 2015 repousa entre os herois da Pátria Brasileira. Brizola é um ícone da resistência dos trabalhadores, da defesa da soberania nacional, da educação como motor transformador de uma nação.
43 anos depois, do Rio de Janeiro para Cabedelo, sob os ventos e o verde intenso da Praia Formosa, Antonio Augusto Fontes trouxe a este colunista que vos escreve esse fragmento da história de Brizola, que nos ensina a não cometer o mesmo erro diante de ameaças de militares sobre a democracia brasileira.
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