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      Tarifas de importação e regulação do gás natural podem alavancar cenário da indústria química, afirma Abiquim

      Presidente da Abiquim, André Passos afirma que elevação de tarifas de importação para 63 insumos químicos é estratégica e beneficiou cerca de 20 empresas

      André Passos, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Químicas (Abiquim) (Foto: Divulgação | Agência Brasil )
      Aquiles Lins avatar
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      247 - O ano de 2024 trouxe novos desafios para a indústria química brasileira, que continua enfrentando os efeitos de um ciclo de baixa, caracterizado por uma oferta global superior à demanda. Segundo André Passos, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), este cenário é resultado de descompassos gerados por investimentos em larga escala e agravados pelas mudanças econômicas e logísticas ocasionadas pela pandemia. "Desde a pandemia, estamos com uma oferta 20% acima da demanda no mercado global. Isso causa quedas nos preços e acirra a disputa entre grandes players, como Estados Unidos e China. No Brasil, em dólares, o setor teve uma retração de 2,3% no faturamento em 2024", detalhou Passos.

      Um dos fatores que pressionam a indústria nacional é o aumento das importações de produtos químicos, muitas vezes a preços inviáveis para a produção local. Para mitigar esses impactos, a Abiquim propôs a elevação de tarifas de importação para 63 produtos identificados como críticos. A medida beneficiou cerca de 20 empresas nacionais, mas não conseguiu evitar o fechamento de duas plantas produtivas: uma de selantes em Candeias, na Bahia, e outra de bisfenol em Paulínia, São Paulo. "Há quem diga que as mudanças beneficiaram apenas uma empresa, a Braskem, mas isso não corresponde à realidade. Diversas empresas de médio e grande porte foram contempladas pelas tarifas elevadas. Nossa intenção é proteger toda a cadeia produtiva do setor químico", reforçou o presidente.

      Outro desafio apontado é o alto custo do gás natural no Brasil, sete vezes superior ao dos Estados Unidos. Passos explicou que o gás é essencial para a produção de insumos como metanol, utilizado na fabricação de biocombustíveis. Contudo, a infraestrutura brasileira, que inclui transporte e processamento do gás, torna o produto pouco competitivo. "Apesar de o Brasil produzir 130 milhões de metros cúbicos de gás por dia, só 60 milhões chegam ao mercado. Isso ocorre porque há uma desconexão entre o preço esperado pelos fornecedores e a capacidade de pagamento dos consumidores. Regular esse mercado é urgente", afirmou. A Abiquim tem buscado colaborar com a Petrobras para alinhar as expectativas entre produtores e consumidores, além de promover ajustes que tornem o ambiente de negócios mais competitivo. Para Passos, uma atuação mais firme da Agência Nacional de Petróleo (ANP) também é necessária para revisar os custos associados à infraestrutura de transporte e processamento do gás natural.

      O gás natural exerce importância também no processo de descarbonização da indústria. De acordo com o estudo Descarbonização da Indústria de Base, realizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e disponível na biblioteca virtual da instituição, a descarbonização da indústria química é um desafio significativo devido à dependência de processos altamente emissores e ao uso intensivo de combustíveis fósseis, como a nafta, em suas operações. Para enfrentar esse cenário, de acordo com o estudo, as principais estratégias incluem a substituição da nafta por gás natural e a adoção de matérias-primas renováveis, como biogás e etanol, para a produção de produtos químicos de base. Além disso, tecnologias avançadas, como eletrificação de processos e o uso de hidrogênio verde, aparecem como soluções promissoras para reduzir as emissões nos processos industriais.

      Outra vertente estratégica está no desenvolvimento de químicos renováveis e no aprimoramento de processos produtivos, visando maior eficiência energética e redução da intensidade de carbono por tonelada produzida. O sucesso dessas iniciativas depende de investimentos robustos em inovação tecnológica, além de políticas públicas e incentivos que tornem os custos competitivos em relação às tecnologias tradicionais, criando condições para que a indústria química brasileira se alinhe às metas globais de neutralidade de carbono. Segundo o BNDES, o banco apresenta novas linhas de crédito para projetos de descarbonização, como no Plano Mais Produção, que prevê R$ 300 bilhões em recursos até 2026.

      Gás natural de Vaca Muerta, na Argentina

      O executivo comentou também sobre o acordo firmado entre o Brasil e a Argentina em novembro para viabilizar a exportação de gás natural da região de Vaca Muerta ao Brasil. Estima-se uma viabilidade de movimentação de 2 milhões de metros cúbicos por dia no curto prazo, aumentando nos próximos 3 anos para 10 milhões, até atingir 30 milhões em 2030. Segundo André Passos, o projeto apresenta grande potencial devido ao baixo custo de produção no local, mas depende de investimentos significativos em infraestrutura para viabilizar o transporte e a competitividade do insumo no mercado brasileiro.

      Entre as alternativas estudadas para trazer o gás ao país estão a conexão pela malha de gasodutos já existente no sul ou a inversão do gasoduto Brasil-Bolívia, permitindo que o gás argentino seja direcionado ao Brasil. Contudo, Passos destaca que as distâncias para o transporte são extensas e a regulação do mercado interno é fundamental para garantir que o produto chegue a preços competitivos.

      "O mercado brasileiro precisa estar ajustado para que o gás entre de forma competitiva, já que os ofertantes argentinos observam os preços praticados aqui como referência. Isso pode elevar os valores inicialmente", explica Passos. Apesar dos desafios no curto prazo, ele avalia que a entrada de volumes adicionais de gás no médio e longo prazo tende a reduzir os preços, criando uma perspectiva positiva para o setor. Além de contribuir para a redução dos custos energéticos e fortalecer a competitividade da indústria nacional, a medida abre novas possibilidades para o desenvolvimento econômico regional.

      Acordo comercial Mercosul-UE 

      O acordo entre Mercosul e União Europeia traz desafios ao setor, já pressionado por um cenário global de margens reduzidas e pela competição de gigantes como Estados Unidos e China, na avaliação do dirigente da Abiquim. "É fundamental que o governo brasileiro garanta condições para que a indústria química possa competir de forma justa nesse ambiente", afirmou Passos.

      Outro ponto levantado pelo presidente da Abiquim é o impacto do acordo sobre a balança comercial do setor químico, que já apresenta déficit. Produtos como metanol, fundamental para a produção de biocombustíveis, são atualmente 100% importados. “O Brasil tem capacidade de produzir metanol, mas o preço do gás natural, sete vezes maior que o dos Estados Unidos, inviabiliza a competitividade”, explicou. O impacto do acordo Mercosul-UE será, portanto, um teste para a capacidade do Brasil de equilibrar abertura comercial e proteção à sua base industrial. Na visão de André Passos, o futuro da indústria química depende de um esforço coordenado entre governo, setor produtivo e entidades reguladoras para garantir competitividade e sustentabilidade a longo prazo.

      Assista à entrevista na íntegra: 

       

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