A falsidade como sistema
A milícia digital bolsonarista não atua de forma espontânea, mas de maneira coordenada, com o objetivo de produzir e espalhar desinformação
Uma pergunta a ser lançada no Brasil do tempo presente, por cada pessoa que se interesse pela verdade dos fatos dos últimos anos, é a de buscar responder: o que há de autêntico no bolsonarismo?
O fanatismo religioso desencadeado a partir de 2016, por segmentos das igrejas católica e evangélica, no contorcionismo teológico de apresentá-lo como um mito sagrado, escolhido pelo Deus judeu-cristão, para conduzir a nação brasileira, esbarrou frontalmente com a política implantada pelo seu líder Jair Bolsonaro de desenvolver uma cultura de violência truculenta, por meio da liberação geral da venda de armas de fogo. Nada mais falso ao ensinamento do Cristo, que era manso e humilde de coração, construtor da paz e não da banalização do ódio nas relações humanas. (Mt 5, 3:12).
O fascismo que alicerça o pensamento do apologista da tortura Jair Bolsonaro ampara-se no desatino quimérico de uma sociedade dominada por machos brancos, heteros, cristãos, chauvinistas e ricos. Todos os que estiverem fora desse padrão não são merecedores do selo “cidadão de bem”, tendo de enfrentar a exclusão social por toda a vida. Bem aos moldes do conservadorismo do irlandês Edmund Burke (1729 – 1797).
Em seu receituário autoritário, agem manipulando corações e mentes dos fiéis adeptos, alimentando a amplificação do ódio em relação a opositores políticos, “fulanizando” a guerra entre familiares, vizinhos, colegas de trabalho, cidadãos e cidadãs.
Assumem com convicção ideológica que, quanto mais profundas forem as polarizações por eles alimentadas, poderão explorá-las em seu benefício particular e em favor do seu projeto fascista de poder. A eles não interessa a igualdade promovida formalmente pela democracia, nem o bem comum.
Buscam, por meio de sua milícia digital, construir uma realidade paralela, promovendo ampla ignorância pública, em diversos níveis, mediante desinformações sistemáticas, manipuladas de tal forma que pareçam objetivas, gerando um amplo ecossistema de desinformação. (https://dev1-piaui.folha.uol.com.br/materia/o-show-de-jair/).
A milícia digital bolsonarista não atua de forma espontânea, mas de maneira coordenada, com o objetivo de produzir e espalhar desinformação, ocupando o espaço público com o objetivo de validar como verdade um conjunto de mentiras, operando em quatro eixos temáticos: “religião e costumes”, “violência e criminalidade”, “desmoralização do sistema eleitoral”, “agenda socioeconômica”. O impulsionamento das redes sociais com conteúdos fake news pode durar semanas ou meses. (https://segundaopiniao.jor.br/horrores-da-ditadura-bolsofascista/).
Da mesma forma não se pode negligenciar na reflexão crítica do papel jogado pelo assim chamado “Partido Militar”, como estrutura estratégica de incentivo ao bolsonarismo, desde o tempo dos twitters ameaçadores do general Eduardo Villas Bôas ao Supremo Tribunal Federal (STF), em abril de 2018, atemorizando os ministros caso fosse acolhido o Habeas Corpus impetrado pela defesa do então ex-presidente Lula. Recorde-se que em 28 de novembro de 2022, após a vitória democrática de Lula na eleição presidencial, em carta dirigida à nação por algumas centenas de militares da ativa do Exército, estes se diziam “atentos a tudo que está acontecendo e que vem provocando insegurança jurídica e instabilidade política e social no país”, numa clara demonstração da realidade paralela que estavam produzindo.
Consequentemente, não há como pensar em anistiar o núcleo duro dessa quadrilha que atentou de forma armada contra o Estado Democrático de Direito Brasileiro, visando a um golpe de Estado, nas diversas etapas por eles planejadas e executadas. A punição deve ser exemplar.
Anistia é um conceito ligado a um compromisso com a verdade. Comprometimento explícito de reposicionamento político, pelo arrependimento, diante dos horrores cometidos pelos integrantes da organização criminosa. Não há anistia sem arrependimento e sem compromisso explicito por parte dos indivíduos a serem anistiados.
Anistia implica uma pactuação engajada com o respeito à Lei, à soberania popular, aos valores democráticos, aos Direitos Humanos e demais artigos previstos na Constituição. E isto parece algo impossível de ser assumido por estes fascistas que fazem da falsidade sua práxis.
Além do mais, pela gravidade dos crimes cometidos contra a Democracia, uma anistia poderia abrir um precedente perigoso o qual poderia incentivar futuros atos golpistas ao sinalizar que tais traições podem ser perdoadas.
O jurista Lênio Streck, um dos mais renomados do país, crítico contundente da anistia aos golpistas e a Jair Bolsonaro, argumenta que isto enfraqueceria a Democracia e o Estado de Direito. A sociedade brasileira precisa pressionar o Congresso para abandonar de vez discussões sobre anistia e focar na responsabilização dos criminosos. Streck vê a anistia como um sinal de impunidade que pode perpetuar ciclos de autoritarismo e desrespeito às instituições democráticas. (Bolsonaro denunciado: "Mais importante processo jurídico dos últimos 50 anos", diz Lenio Streck | Revista Fórum).
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
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