Cavalo também morre pela boca
"Uma entrevista pode absolver ou condenar"
Muitas pessoas, não sei exatamente quantas, têm se mostrado indignadas, perplexas e até furiosas com o “espaço” que a Folha de S. Paulo dá ao ex-presidente Bolsonaro “para se defender” das acusações de tentativa de golpe, pessoas que por não terem ideias nem pensamentos próprios repetem o velho e injusto rótulo que um brilhante jornalista pregou nos jornalões, sobretudo a Folha, de que eles seriam o PIG-Partido da Imprensa Golpista, ou seja, órgãos de imprensa que estão sempre dispostos a apoiar um golpe de estado. O mesmo jornalista que colocou a alcunha de Urubóloga na colega Míriam Leitão, torturada nos porões da ditadura, em razão das críticas que fazia à política econômica do segundo governo Lula.
Para compreender a história é preciso examiná-la de forma dinâmica e não ater-se a um episódio para tirar conclusões parciais, que soam inteligentes, corajosas e até “revolucionárias”, como no caso da Folha e do Estadão, em São Paulo, e que viram mantras sem que as pessoas se deem ao trabalho de descobrir o que de fato aconteceu.
Não há dúvida que tanto a Folha quanto o Estadão deram força para derrubar João Goulart, não porque quisessem uma ditadura, pois sabiam que o primeiro alvo das ditaduras é sempre a imprensa, mas porque temiam (erroneamente) que Goulart estava dando mole para os comunistas de seu governo e que isso descambasse numa ditadura comunista, com o fim da imprensa.
O Estadão percebeu logo, um ano depois do golpe, que os militares não iam abandonar a bagaça tão cedo e passou a denunciar a censura em seu jornal, colocando no lugar das matérias censuradas receitas de bolo, até na primeira página, tanto o Estadão quanto seu filho caçula, o Jornal da Tarde.
A Folha foi mais estúpida e criminosa ao embarcar no golpe, colaborou fornecendo suas viaturas para serviços macabros do DOI-CODI, e isso ninguém vai apagar, mas não se pode omitir, a não ser por desonestidade que, na década de 1980 a Folha aderiu com todo o fervor à maior campanha cívica da história do Brasil, a das Diretas Já, que foi decisiva para derrubar a ditadura.
Quem não sabe o que é imprensa desconhece que uma entrevista tanto pode ajudar o entrevistado em seus argumentos, quanto revelar os crimes que tenta esconder.
Na entrevista de hoje à Folha, Bolsonaro prova que, como diz o antigo provérbio, “peixe morre pela boca”. Ele admite ter discutido com chefes militares alternativas que o mantivessem no poder, mesmo depois do resultado eleitoral adverso, o que na cabeça dele eram apenas “conversas dentro das quatro linhas” e que, na realidade política e jurídica do país constituem tentativa de golpe de estado. Moraes deve estar rindo até agora.
A entrevista, que para os intolerantes de sempre provaria o golpismo inveterado da Folha, é, na realidade, uma confissão que só não tem valor jurídico porque foi relatada a um jornal e não à Primeira Turma do STF.
É verdade que, quando for interrogado no processo no qual é réu, ele poderá desmentir a confissão. Mentir está no seu DNA.
Mas não há dúvida que ele mostrou que Cavalo, seu apelido na caserna, também morre pela boca.
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