Querido mundo - É assim que se parece a unidade palestina
A unidade que permanece em Gaza, após um dos genocídios mais horrendos da história moderna, deve servir como um alerta
Publicado originalmente pelo Middle East Monitor em 29 de janeiro de 2025
Mesmo aqueles de nós que há muito enfatizamos a importância da voz, da experiência e da ação coletiva do povo palestino na história da Palestina devem ter ficado chocados com a revolução cultural resultante da guerra israelense contra o povo de Gaza.
Por revolução cultural, refiro-me à narrativa desafiadora e rebelde que está se desenvolvendo em Gaza, onde as pessoas se veem como participantes ativas da resistência popular, e não apenas como meras vítimas da máquina de guerra israelense.
Quando o cessar-fogo foi anunciado no 471º dia do genocídio israelense, os palestinos em Gaza tomaram as ruas em comemoração. Os meios de comunicação relataram que eles estavam celebrando o cessar-fogo, mas, a julgar por seus cantos, músicas e simbolismos, estavam, na verdade, celebrando a sua vitória coletiva, a sua firmeza (sumud) e a sua resiliência contra o poderoso exército israelense - que tem sido e continua sendo apoiado pelos EUA e outros países ocidentais.Usando ferramentas básicas, eles correram para limpar as suas ruas, removendo escombros para permitir que os deslocados procurassem os seus lares. Embora suas casas provavelmente tenham sido destruídas por Israel – 90% das unidades habitacionais de Gaza o foram, segundo as Nações Unidas –, eles ainda estavam felizes, mesmo que só pudessem se sentar sobre os escombros. Alguns rezaram sobre lajes de concreto, alguns cantaram em grandes e crescentes multidões, e outros choraram, mas insistiram que nenhum poder jamais poderia arrancá-los novamente da Palestina.As redes sociais foram inundadas com palestinos expressando uma mistura de emoções, embora, na maior parte, se mostrassem desafiadores, manifestando a sua determinação não apenas em termos políticos, mas também de outras formas, incluindo o humor.
É claro que os fisiculturistas voltaram às suas academias para encontrá-las também, em sua maioria, destruídas. Em vez de lamentar as suas perdas, no entanto, eles resgataram equipamentos e retomaram o treinamento entre paredes desmoronadas e tetos perfurados por mísseis israelenses.
Havia também um pai e um filho que compuseram uma canção no estilo ahazej, uma vocalização tradicional levantina.
O filho, radiante ao encontrar o pai vivo, foi tranquilizado por ele de que nunca abandonariam a sua pátria.
Quanto às crianças – das quais 14.500 foram mortas por Israel, segundo a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) –, elas retomaram a sua infância. Apropriaram-se dos tanques israelenses destruídos em Rafah, Beit Hanoun e outras áreas como se fossem novos brinquedos em seus parques de diversão.
Um adolescente fingiu ser um vendedor de sucata e gritou: “Um tanque Merkava israelense à venda”, enquanto seus amigos o filmavam e riam. “Certifique-se de enviar este vídeo para [o primeiro-ministro israelense Benjamin] Netanyahu”, acrescentou antes de seguir adiante, impassível.
Isso não significa que Gaza esteja livre de uma dor inimaginável, difícil de ser totalmente compreendida pelo resto do mundo. As cicatrizes emocionais e psicológicas da guerra durarão por toda a vida, e muitos jamais se recuperarão completamente do trauma. Mas os palestinos em Gaza sabem que não podem se permitir sofrer da maneira usual. Assim, enfatizam a sua identidade, unidade e desafio como formas de superar o luto.Paralelamente à sua ofensiva militar contra Gaza desde 7 de outubro de 2023, Israel tem investido pesadamente na tentativa de dividir o povo palestino e abalar o seu espírito. Em Gaza, lançou milhões de panfletos de aviões de guerra sobre refugiados famintos, incentivando-os a se rebelarem contra as facções palestinas, fornecendo a Israel os nomes dos “encrenqueiros”. O exército israelense ofereceu grandes recompensas por essas informações, mas obteve pouco sucesso.Esses panfletos também convocavam os líderes tribais a assumirem o controle das suas áreas em troca de comida e proteção. Para punir aqueles que resistiram, Israel sistematicamente assassinou representantes de clãs e conselheiros que tentaram distribuir ajuda em toda Gaza, especialmente no norte, onde a fome era devastadora.
Apesar das enormes adversidades, os palestinos permaneceram unidos.
Quando o cessar-fogo foi declarado, eles comemoraram como uma nação unificada. Com Gaza destruída, as ações de Israel obliteraram as divisões de classe, regionais, ideológicas e políticas de Gaza. Todos em Gaza tornaram-se refugiados: ricos, pobres, muçulmanos, cristãos, moradores da cidade e residentes dos campos de refugiados; todos foram igualmente afetados.
A unidade que permanece em Gaza, após um dos genocídios mais horrendos da história moderna, deve servir como um alerta. A narrativa de que os palestinos estão divididos e precisam “encontrar um consenso” revelou-se falsa.
Com a Autoridade Palestina (AP) na Cisjordânia colaborando com Israel na guerra contra Jenin e outros campos de refugiados, a antiga ideia de unidade política por meio da fusão da AP com diversas facções palestinas já não é viável. A realidade é que a fragmentação do cenário político palestino não pode ser resolvida por meros acordos políticos ou negociações entre facções.
Um tipo diferente de unidade já criou raízes em Gaza e, por extensão, em comunidades palestinas nos territórios ocupados e no resto do mundo. Essa unidade é visível nos milhões de palestinos que se manifestaram contra a guerra, que entoaram cânticos por Gaza, que choraram por Gaza e que desenvolveram um novo discurso político em torno dela.
Essa unidade não depende de figuras midiáticas em canais árabes de televisão ou de reuniões secretas em hotéis luxuosos. Ela não precisa de negociações diplomáticas. Anos de discussões intermináveis, “documentos de unidade” e discursos inflamados levaram apenas à decepção.
A verdadeira unidade já foi alcançada, sentida nas vozes do povo comum, que não mais se identificam como membros de facções. Eles são Gazzawiyya. Palestinos de Gaza, e nada mais.
Essa é a verdadeira unidade que agora deve servir como base para um novo discurso.
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