Breno Altman: “Flávio Bolsonaro é o inimigo da Pátria”
Jornalista diz que disputa de 2026 deve opor soberania nacional a alinhamento automático com os EUA
247 - O jornalista Breno Altman afirmou que a candidatura de Flávio Bolsonaro deve ser compreendida como parte de uma estratégia da extrema direita internacional e não apenas como uma disputa doméstica pelo poder. Em participação no Bom Dia 247, Altman disse que o senador bolsonarista atua como representante dos interesses da Casa Branca no Brasil e defendeu que o campo progressista trate a eleição de 2026 como um confronto entre soberania nacional e subordinação ao imperialismo norte-americano.
“Na verdade, as eleições de outubro são Lula contra Marco Rubio ou Lula contra Donald Trump”, afirmou Altman. Para ele, Flávio Bolsonaro, assim como outras lideranças da direita radical na América Latina, integra um movimento regional alinhado à nova estratégia dos Estados Unidos para retomar influência política sobre o continente. “Eles não são candidaturas nacionais legítimas, são braços, são tentáculos da Casa Branca”, declarou.
A avaliação foi feita no contexto das recentes movimentações de Flávio Bolsonaro em direção ao governo norte-americano e de sua defesa de alinhamento político com Israel e com experiências ultraliberais, como a do presidente argentino Javier Milei. Segundo Altman, esses gestos fazem parte de uma tentativa de recompor a base bolsonarista após uma sequência de desgastes políticos, incluindo disputas internas no clã Bolsonaro e o escândalo envolvendo o Banco Master.
Para o jornalista, o bolsonarismo busca reafirmar símbolos que consolidaram sua base social nos últimos dez anos: aproximação com os Estados Unidos, defesa de Israel, agenda de segurança pública e neoliberalismo radical. “Aquilo que para nós parece escandaloso, para eles é vitamina”, disse. Altman afirmou que esses sinais podem afastar eleitores independentes, mas são usados para manter coesa a base mais ideológica da extrema direita.
Altman também criticou a tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como interlocutor privilegiado dos Estados Unidos em meio à possibilidade de tarifas contra o Brasil. Segundo ele, o senador buscou aparecer como alguém capaz de impedir sanções ou medidas comerciais prejudiciais ao país, mas acabou recebendo de Marco Rubio apenas uma carta de apoio político. “A Casa Branca pensa primeiro nos seus interesses e na sua estratégia, depois na dos seus vassalos”, afirmou.
O jornalista sustentou que a direita brasileira tem longa tradição de alinhamento aos interesses norte-americanos. Ele comparou a postura de Flávio Bolsonaro à de Carlos Lacerda durante o governo João Goulart, quando setores conservadores buscaram apoio externo contra projetos nacionalistas. “Isso que Flávio Bolsonaro faz de demandar pressões, tarifas, sanções e agressões ao Brasil, Lacerda já fez no passado”, disse.
Para Altman, a campanha de Lula deveria deslocar o eixo do debate público. Em vez de insistir apenas na oposição entre democracia e fascismo, que ele considera abstrata para grande parte da população, o jornalista defende uma disputa mais direta entre “nação e imperialismo”. “O discurso entre os defensores da pátria e os inimigos da nação é compreensível”, afirmou.
Altman avaliou ainda que Lula chega ao momento atual em condição eleitoral melhor do que em abril e maio, mas advertiu que a disputa tende a ser extremamente apertada. Segundo ele, o desgaste de Flávio Bolsonaro com o caso Vorcaro e com a exposição de seus vínculos externos melhorou o ambiente para o presidente, mas não rompeu a polarização. “Vai ser uma eleição dificílima, talvez mais acirrada do que a de 2022”, afirmou.
O jornalista também alertou contra campanhas baseadas na expectativa de vitória no primeiro turno. Para Altman, esse tipo de discurso pode gerar frustração na militância e dificultar a mobilização em um eventual segundo turno. “A questão é vencer as eleições, não fazer previsão de que vai vencer no primeiro turno”, disse.
Na avaliação de Altman, a eleição será decidida por uma pequena parcela de eleitores independentes, estimada por ele entre 2% e 5% do eleitorado. Esse grupo, segundo o jornalista, tende a reagir mais diretamente ao noticiário, aos escândalos e aos movimentos das campanhas. O desafio, para Lula e para Flávio Bolsonaro, será equilibrar a mobilização de suas bases com a disputa por esse segmento pendular.
Ao final, Altman afirmou que o bolsonarismo enfrenta uma contradição: precisa reafirmar sua identidade ideológica para manter a base mobilizada, mas esses mesmos gestos podem dificultar a aproximação com eleitores moderados. No caso de Lula, a tensão seria inversa: atender às demandas de maior enfrentamento ao imperialismo e ao neoliberalismo sem afastar setores independentes. “Não é a mesma gramática”, resumiu.



