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      "Minha eleição mostra que há algo se transformando", diz primeira mulher negra eleita em Osório, RS

      Isabel Silveira dos Santos, vereadora mais votada do município no RS, compartilha sua jornada política, desafios enfrentados e a luta contra o racismo

      (Foto: Reprodução )
      Dafne Ashton avatar
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      247 - Em entrevista ao programa Boa Noite 247, a professora e historiadora Isabel Silveira dos Santos, vereadora mais votada de Osório, Rio Grande do Sul, compartilhou sua trajetória e reflexões sobre racismo, resistência e política. Primeira mulher negra eleita para a Câmara Municipal da cidade, Isabel destacou os desafios enfrentados e a relevância da educação em sua ascensão.

      Origem e formação

      Filha de uma faxineira e de um pedreiro, Isabel cresceu na periferia de Osório. Para financiar o curso de magistério, trabalhou como empregada doméstica ao lado da irmã. "Minha mãe entregou o contracheque dela e não era suficiente para pagar nossa mensalidade", lembrou. Posteriormente, tornou-se uma das primeiras mulheres negras da cidade a concluir mestrado e doutorado.

      Contexto histórico do racismo no estado

      Isabel ressaltou o caráter conservador e racista de Osório, reflexo da fundação da região. Seu bisavô foi escravizado nas fazendas da então Conceição do Arroio, atual Osório. "O Rio Grande do Sul tem uma narrativa de que não tem negros, mas em 1872 era o sexto estado com maior população escravizada", afirmou. A vereadora também mencionou o silenciamento histórico sobre a presença negra no estado, citando líderes como Bento Gonçalves, que possuía escravizados.

      Enfrentando o racismo

      Ao abordar experiências de racismo, Isabel relatou episódios de discriminação. "Uma vez, ao pedir voto, uma mulher me disse: 'Eu não voto em mulher, muito menos em mulher negra'", contou. Mesmo após ser eleita com 1.609 votos, a maior votação da cidade, enfrenta resistência de setores racistas. "Ouvi recentemente uma pessoa perguntar: 'Por que tanta gente gosta dessa mulher?'", desabafou. Apesar dos obstáculos, celebra as mudanças em curso: "Minha eleição mostra que, por menor que seja o movimento, há algo se transformando".

      Trajetória política e sindical

      A carreira política de Isabel iniciou-se no movimento sindical. Como professora, presidiu o Sindicato dos Municipários de Osório por quatro mandatos. "Ganhei a eleição e pensei: o que eu sei sobre sindicalismo? Aí fui estudar", relembrou. No sindicato, aprendeu a equilibrar uma postura combativa com a necessidade de mediação. Com o tempo, consolidou-se como defensora dos direitos dos trabalhadores e na luta antirracista. "Hoje, estar na Câmara é dar voz a quem nunca teve", afirmou.

      Inspiração para futuras gerações

      Isabel compartilhou uma história marcante: ao ser aprovada no doutorado, seu irmão, radialista, colocou uma faixa em sua homenagem em frente à casa da família. Uma mulher negra, ao ver a homenagem, disse às filhas: "Vocês têm que chegar lá". Anos depois, uma das filhas daquela mulher ingressou no mestrado. "Isso é inspirador. Nossa luta é cotidiana, mas queremos continuar lutando. Nosso sonho é um dia não precisar mais brigar por igualdade, porque todos seremos realmente iguais", concluiu a vereadora. Assista: 

       

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