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    “Trump está triplicando as apostas e pode acelerar o declínio dos EUA”, diz José Kobori

    Nova onda de tarifas impostas pelo governo dos EUA reacende tensões comerciais e questiona futuro da economia global

    (Foto: Divulgação | Jim Watson/Pool via REUTERS)
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    247 - Desde a posse de Donald Trump para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, uma nova onda de protecionismo comercial se intensificou no mundo. As medidas tarifárias impostas pela Casa Branca afetam diversos países, mas têm como alvo principal a China. Mais do que uma guerra comercial, trata-se de uma disputa geopolítica que coloca em xeque a hegemonia econômica dos EUA. O tema foi debatido no programa 20 Minutos, conduzido pelo jornalista Breno Altman, que teve como entrevistado o especialista em finanças empresariais José Kobori.

    Kobori, graduado em marketing e especialista em administração financeira pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que a guerra tarifária representa um momento de inflexão no capitalismo global. "Trump está triplicando as apostas ao tentar proteger a economia americana, mas, no fundo, isso pode acelerar ainda mais o declínio da hegemonia dos EUA", analisou. Segundo ele, a financeirização da economia ocidental tem aprofundado as desigualdades, enquanto a China, ao controlar seu sistema financeiro e manter um modelo de socialismo de mercado, conseguiu sustentar seu crescimento sem crises recorrentes.

    O modelo chinês e a estabilidade econômica

    Um dos pontos mais debatidos na entrevista foi a forma como a China conseguiu evitar os ciclos de crise que atingiram o capitalismo ocidental. Kobori destacou que a inclusão de milhões de chineses no mercado consumidor interno foi fundamental para o fortalecimento da economia do país. "Enquanto os EUA concentram riquezas e aumentam desigualdades, a China segue o caminho inverso: fortalece seu mercado interno e investe pesadamente em educação, ciência e tecnologia", explicou.

    Outro diferencial da economia chinesa, segundo Kobori, é o controle estatal sobre o setor financeiro, o que impede crises especulativas como a que ocorreu com a bolha imobiliária da Evergrande. "Muitos apostaram que a China teria seu 'Lehman Brothers', mas o que aconteceu foi o oposto. O governo chinês conseguiu intervir de forma rápida e evitar um colapso", analisou.

    China: socialismo de mercado ou capitalismo de Estado?

    A discussão também abordou a natureza do modelo econômico chinês. Para Kobori, a China criou uma evolução histórica do socialismo, aprendendo com os erros da União Soviética e mantendo um sistema de planificação econômica com espaço para a livre iniciativa. "A China soube combinar as forças de mercado com o planejamento estatal. O governo controla os setores estratégicos, mas permite que as pessoas empreendam e inovem dentro de um modelo regulado", afirmou.

    A estabilidade política também foi apontada como um fator que diferencia a China dos países ocidentais. "Os bilionários chineses sabem que não podem usar seu poder econômico para influenciar a política, como ocorre nos EUA. O caso de Jack Ma é um exemplo: ele foi 'enquadrado' pelo Partido Comunista quando tentou desafiar as diretrizes estatais", explicou Kobori.

    Inteligência artificial e disputa tecnológica

    Outro aspecto essencial no embate entre EUA e China é a corrida tecnológica. Kobori lembrou que, apesar das sanções impostas pelos EUA à exportação de chips avançados para a China, o país asiático segue avançando. "A China demonstrou que pode desenvolver suas próprias tecnologias e, em alguns casos, está até à frente dos EUA, como na computação quântica", afirmou. Ele também citou os avanços chineses em inteligência artificial e a estrutura de pesquisa superior das universidades chinesas em relação às norte-americanas.

    A nova guerra fria comercial e as consequências globais

    Ao ser questionado sobre o impacto da guerra tarifária para a China, Kobori destacou que, apesar dos prejuízos, Pequim está melhor preparada para enfrentar as adversidades do que os EUA. "Os Estados Unidos estão criando inimigos pelo mundo e perdendo aliados. Ao mesmo tempo, a China fortalece suas relações comerciais com o Brics e com países da África, da América Latina e do Sudeste Asiático", analisou.

    Ele também comentou sobre a Nova Rota da Seda, programa chinês de infraestrutura que visa integrar mercados ao redor do mundo. "Diferente do imperialismo clássico ocidental, que impõe cartilhas políticas e econômicas, a China oferece financiamento para projetos que impulsionam o desenvolvimento dos países parceiros", disse.

    E o Brasil?

    Em relação ao Brasil, Kobori acredita que o país precisará definir melhor sua posição geopolítica. "O Brasil historicamente tenta ficar em cima do muro, mas, em algum momento, precisará tomar partido. Se deseja se reindustrializar e fortalecer sua economia, precisa aproveitar as oportunidades do Brics e negociar transferência de tecnologia com a China", destacou.

    Ele também defendeu uma mudança estrutural na economia brasileira, com maior investimento em educação e inovação. "O Brasil já foi uma potência industrial nos anos 1980 e poderia voltar a ser se tivesse um projeto de nação claro", argumentou. Assista: 

     

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