Pepe Escobar: BRICS avança na multipolaridade apesar de resistências internas
Analista critica postura das elites atlantistas no Brasil e destaca papel estratégico da Indonésia no bloco
247 – Em entrevista ao canal do analista geopolítico Glenn Diesen, no YouTube, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar fez uma ampla análise sobre o papel do BRICS na reconfiguração da ordem mundial, a resistência de setores internos no Brasil à expansão do bloco e a ascensão da Indonésia como membro estratégico. A conversa abordou também os desafios do governo Lula na organização da próxima cúpula do grupo, prevista para julho no Rio de Janeiro.
Escobar destacou que, enquanto a Rússia, sob sua presidência do BRICS em 2023, conduziu um processo de expansão significativo e preparou terreno para novas adesões, a atual gestão brasileira está enfrentando entraves internos. “Tenho profundas reservas sobre a forma como o Ministério das Relações Exteriores do Brasil considera o BRICS. Algumas das minhas melhores fontes confirmam que há um lobby anti-BRICS dentro do Itamaraty e do Ministério da Fazenda”, afirmou o analista.
A resistência à inserção mais ativa do Brasil no bloco, segundo Escobar, vem de setores da elite financeira nacional, que historicamente possuem vínculos com o Ocidente e priorizam relações comerciais e políticas com os Estados Unidos e a União Europeia. “As elites dominantes no Brasil, o velho dinheiro e até mesmo parte do novo dinheiro, não são exatamente BRICS, eles são atlantistas buscando lucros fáceis, sem uma estratégia de longo prazo”, criticou.
A ascensão da Indonésia no bloco
A discussão também abordou o crescimento do BRICS e a inclusão da Indonésia, país que, segundo Escobar, é estratégico não apenas pela sua dimensão econômica, mas por seu posicionamento geopolítico. “Muitos no Ocidente ainda vêem a Indonésia como apenas mais um país na Ásia, mas esse é um gigante com mais de 280 milhões de habitantes, uma economia em ascensão e estrategicamente localizado em corredores marítimos fundamentais”, explicou.
Escobar ressaltou que tanto a China quanto a Rússia fizeram um grande esforço para garantir que a Indonésia tivesse um papel de protagonismo no BRICS, em vez de ocupar uma posição secundária como a Malásia ou o Vietnã. “Os russos estão investindo fortemente em relações diplomáticas e econômicas com a Indonésia, assim como fizeram na África. Isso faz parte de uma ofensiva mais ampla para fortalecer o bloco e consolidar uma alternativa à ordem unipolar ocidental”, disse.
BRICS como alternativa à ordem financeira ocidental
Outro ponto destacado por Escobar é a forma descentralizada com que o BRICS opera, diferentemente de blocos como a União Europeia, permitindo que seus membros harmonizem iniciativas econômicas sem imposições. Isso tem atraído novos países para o grupo, interessados em mecanismos de comércio que não dependam do dólar. “Os BRICS não são um bloco ideológico contra o Ocidente, mas buscam reduzir sua dependência das instituições financeiras ocidentais. Já vemos China e Rússia conduzindo 90% do seu comércio bilateral fora do sistema do dólar, sem alarde”, destacou.
Escobar alertou que os Estados Unidos e a União Europeia seguem subestimando o impacto do BRICS na nova configuração geopolítica global. “Nos think tanks americanos, o BRICS ainda é tratado como um clube inofensivo, enquanto na Europa, o debate está preso a uma mentalidade de Guerra Fria, reduzindo tudo à narrativa binária de bem contra o mal”, criticou.
Ele ainda apontou que a própria Europa está se autossabotando ao seguir a estratégia de sanções contra a Rússia e ao limitar suas relações econômicas com a China. “Se a Alemanha quiser manter sua competitividade, precisará encontrar um equilíbrio com a China, mas os burocratas em Bruxelas insistem em seguir ordens de Washington”, acrescentou.
Um futuro multipolar em expansão
O analista concluiu a entrevista reforçando que o BRICS continuará sendo um elemento fundamental para a transição a um mundo multipolar, mesmo diante das resistências ocidentais. “A questão não é ser anti-Ocidente, mas tornar o Ocidente menos relevante para os países do Sul Global. E isso já está acontecendo”, finalizou Escobar.
A entrevista completa pode ser conferida no canal de Glenn Diesen, no YouTube. Assista:
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