Mesmo com sanções americanas, superávit comercial da China cresce quase 40% no primeiro bimestre de 2025
Enquanto o Ocidente investe bilhões em guerras no Oriente Médio, a China vence a disputa global apenas fazendo negócios
Enquanto os Estados Unidos e seus vassalos no Ocidente torram mais alguns bilhões de dólares numa nova frente de guerra no Oriente Médio, bombardeando civis no Iêmen, o dragão chinês continua vencendo a batalha econômica simplesmente fazendo negócios.
Segundo dados compilados com exclusividade pelo Cafezinho e pelo Global South News (que é a mídia “irmã” do Cafezinho em língua inglesa), o comércio exterior da China voltou a bater recordes nos dois primeiros meses do ano.
A China registrou uma corrente de comércio (soma de exportação e importação), no acumulado de dois meses de janeiro a fevereiro, de US$ 909,37 bilhões. O saldo comercial da China com o resto do mundo, ainda nesse primeiro bimestre do ano, chegou a US$ 170,52 bilhões, correspondendo a um crescimento impressionante de 36% sobre o ano anterior, além de constituir um recorde histórico.


A comparação com os Estados Unidos é inevitável. O déficit comercial dos EUA, mesmo apelando para sanções indiscriminadamente contra incontáveis países, e mesmo com tanto dinheiro investido, desde Biden, em políticas industriais, não para de crescer.
Em fevereiro de 2025, o déficit comercial dos EUA foi negativo em US$ 155,6 bilhões, quase o dobro do déficit de 92 bilhões registrado no mesmo mês do ano anterior.
Mas é melhor comparar os anos cheios. Em 2024, a balança comercial da China bateu recorde histórico, atingindo quase US$ 1 trilhão, ao passo que os EUA foram exatamente no caminho oposto, com déficit superior a US$ 1,2 trilhão.

Isso explica, naturalmente, o desespero da nova administração americana, sob liderança de Donald Trump, e a política delirante de tarifas contra o mundo inteiro. O sistema produtivo americano perdeu competitividade, e agora tenta recuperar terreno no grito.
Nas últimas décadas, enquanto a elite política americana desperdiçava trilhões de dólares do contribuinte americano com guerras inúteis, a China criou um sistema de ferrovias de alta velocidade que já chegou a 50 mil km. Os EUA não tem um mísero km de trem rápido.
Enquanto os EUA financiam o genocídio em Gaza (e que agora já se estendeu para a Cisjordânia e o Líbano), e gabam-se de ter colocado um ex-agente da Al Qaeda no comando da Síria, a China anuncia que a SMIC, estatal de semicondutores, já conseguiu produzir um chip de 5 nanômetros, apesar (ou melhor, por causa das) de todas as sanções que a Casa Branca impôs ao país, para desmoralização de todas as nações lacaias do Norte Global, que perderam centenas de bilhões em negócios com a China apenas para morrerem abraçadas a um perdedor.
Voltemos aos números de comércio exterior da China, que tem uma validade muito importante porque o “Ocidente” não pode fingir que não existem, nem acusá-lo de estarem distorcidos por burocratas malvados em Beijing. É muito complicado falsear números de comércio exterior, porque os dados precisam bater. Tudo que a China importa para um país X, fica registrado tanto nas duas aduanas, na chinesa e na do país que recebe o produto.
Quando se olha para os principais parceiros da China, e para seu comércio exterior de maneira geral, dois fatores chamam atenção. O primeiro é a profunda interdependência econômica com os EUA.
Apesar de toda a gritaria da elite política de Washington, a corrente de comércio entre EUA e China cresceu em 2024, chegando a quase US$ 700 bilhões (ou US$ 688 bilhões para ser exato). O recorde, porém, aconteceu em 2022, quando chegou em US$ 752 bilhões.
O ano de 2025, por sua vez, começou bem para o comércio entre China e EUA, com crescimento na corrente de comércio para US$ 102 bilhões no primeiro bimestre (alta de 2,4% sobre ano anterior), e saldo comercial para a China de US$ 49 bilhões (alta de 2,1%).
O segundo fator a destacar é o giro asiático do comércio chinês, o que também pode ser atribuído ao desenvolvimento econômico dos países da região.
A China, ao invés de exportar golpes, como fazem os EUA, em sua zona de influência, prefere exportar trens de alta velocidade, portos, estradas, e conectividade digital.
Apenas com a Asean, a associação formada por Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietnã, Laos, Myanmar, Camboja, a China já tem uma corrente de comércio de quase US$ 1 trilhão (números de 2024), contra uma corrente, como já foi dito, de US$ 688 bilhões com os EUA no mesmo período, e de US$ 785,8 bilhões com a União Europeia.
Lembremos que a Asean não inclui o Japão, país com o qual a China registrou uma corrente de comércio de outros US$ 308 bilhões em 2024.
A China está usando seus investimentos em infraestrutura para desenvolver novos mercados que podem reduzir sua dependência dos Estados Unidos e da Europa. Parte desses mercados está na vizinhança asiática, enquanto outros se encontram na África e América Latina.
Os dados mostram que o Brasil deveria observar atentamente essa estratégia chinesa. A China possui um volume significativo de capital excedente que precisará ser exportado para manter seu desenvolvimento, o que cria oportunidades para países emergentes.
No caso brasileiro, há necessidade urgente de modernizar a infraestrutura nacional, particularmente no transporte de cargas e passageiros. Isso inclui expandir sistemas metroviários, conectar estados com ferrovias de alta velocidade e reduzir custos logísticos estruturais.
A China está diversificando seu padrão de consumo, incorporando produtos como café, o que pode alterar significativamente o mercado global. O café, por ser uma cultura intensiva em mão de obra, apresenta potencial para geração de empregos, diferentemente de commodities mais mecanizadas.
Segundo dados oficiais do governo chinês, a China importou 918 milhões de dólares em café no acumulado dos últimos 12 meses até fevereiro, o que representou o segundo maior valor na história, menor apenas do que o registrado no mesmo período anterior.
O Brasil foi responsável por 30% de todo o café chinês importado nos últimos 12 meses, seguido de Colômbia, Etiópia, Indonésia e Vietnã.
Mas o principal produto brasileiro exportado para a China é a soja.
Em 2024, o Brasil exportou o correspondente a US$ 36,5 bilhões em soja em grão para a China, o que representou incríveis 69% de toda a soja importada pelo país nesse período. No total, a China importou US$ 52,73 bilhões em grãos de soja em 2024.
Em 2023, o Brasil também havia obtido 69% das importações chinesas de soja em grão.
Nesses dois primeiros meses de 2025, porém, a participação do Brasil caiu brutalmente, para 27%, com queda de quase 60% sobre igual período de 2024. As razões, provavelmente, estão ligadas a uma quebra da produção brasileira do ano passado, mas também à decisão de importadores chineses de adiantar as compras de soja americana antes que o governo chinês decidisse impor tarifas retaliatórias contra a soja daquele país.
Com a supersafra brasileira prevista para este ano, o Brasil possivelmente voltará a ocupar a posição de principal fornecedor de soja para a China.
Por fim, falemos de petróleo.
A China é deficitária em petróleo. Em 2024, a China teve que importar mais de US$ 500 bilhões em petróleo, e foi deficitária em US$ 450 bilhões.

Essa é uma das razões que as estatais de petróleo da China estão investindo tanto em exploração de petróleo em outros países, inclusive no Brasil.
Já os Estados Unidos, que foram deficitários em petróleo durante a maior parte das últimas décadas, voltaram a ser fortemente superavitários. Em 2024, os EUA exportaram US$ 320 bilhões em produtos de petróleo, e a balança comercial do petróleo nos EUA ficou positiva em US$ 79 bilhões, o maior número em muitos anos, quiçá da história.

Esse déficit de petróleo da China explica ainda a dependência que o país tem da Rússia, principal fornecedor do país, sobretudo após a guerra na Ucrânia. Em 2019, a Rússia fornecia apenas 6% do petróleo importado pela China. Este percentual saltou para 19% em 2024, e permaneceu nos dois primeiros meses de 2025.
Otros fornecedores importantes de petróleo para a China, por ordem de importância no primeiro bimestre de 2025, são Arábia Saudita, Malásia, Iraque, Emirados Árabes, Omã e Brasil.
O Brasil respondeu, em 2024, por 4,6% de todo o petróleo importado pela Rússia, percentual rigorosamente igual ao dos EUA.
No primeiro bimestre de 2025, o Brasil já ultrapassou os EUA como fornecedor de petróleo para a China, exportando 3,45 bilhões de dólares, contra 3,21 bilhões dos EUA.
Conclusão - Reitere-se, a China é hoje o país que mais possui capital excedente para investimentos em infra-estrutura, e o Brasil tornou-se um de seus parceiros mais estratégicos. As economias de Brasil e China já estão profundamente integradas, porque oferecemos petróleo, minério de ferro e proteínas, ingredientes necessários para a vida chinesa. O que nos falta? Infra-estrutura, especialmente no campo dos transportes, setor onde a China brilha como o país mais avançado do mundo. Uma das principais fórmulas do desenvolvimento chinês foi o transporte sobre trilhos, em todos os níveis, com sistemas de metrô nas grandes cidades, ferrovias modernas de carga e trens de alta velocidade conectando todo o país. É o momento de usar essa parceria com a China para pensar numa grande transformação do nosso próprio sistema nacional de transporte.


























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