Restaurando mentiras e insanidades à história dos Estados Unidos da América
O ataque à memória histórica pelo governo Trump visa obliterar nossa compreensão compartilhada da realidade
Originalmente publicado no Substack do autor em 31 de março de 2025

O mais recente decreto do presidente Donald Trump, intitulado “RESTAURANDO A VERDADE E A SANIDADE À HISTÓRIA AMERICANA”, replica uma tática usada por todos os regimes autoritários. Em nome do combate ao "viés", eles distorcem a história do país em uma mitologia autojustificadora.
A história será usada para legitimar o poder das elites dominantes no presente, divinizando as elites do passado. O sofrimento das vítimas de genocídio, escravidão, discriminação e racismo institucional será apagado. A repressão e a violência durante as guerras trabalhistas — onde centenas de operários foram assassinados por pistoleiros, capangas corporativos, policiais e soldados da Guarda Nacional durante a luta por sindicalização — serão omitidas. Figuras históricas como Woodrow Wilson serão transformadas em arquétipos sociais, enquanto os seus atos sombrios — incluindo a decisão de re-segregar o governo federal e comandar uma das campanhas mais agressivas de repressão política da história dos EUA — serão ignorados.
Nos livros de história aprovados por Trump — e eu li os materiais usados em escolas "cristãs", então não é mera conjectura —, a igualdade de oportunidades sempre existiu. Os EUA são retratados como o ápice do progresso humano, aperfeiçoado sob a tutela de seus líderes "iluminados" (quase todos homens brancos). O país é glorificado como a vanguarda da "civilização ocidental".
Os grandes líderes do passado são pintados como modelos de coragem e sabedoria, levando a civilização aos "povos inferiores". George Washington, que junto com sua esposa possuía e alugava mais de 300 escravizados e liderou campanhas militares brutais contra indígenas, é um herói a ser imitado. A ânsia por conquista e riqueza — que motivou a escravização de africanos e o genocídio de nativos — é minimizada para destacar a "narrativa heroica" dos pioneiros europeus e euro-americanos. O capitalismo é santificado como a "liberdade suprema". Os pobres e oprimidos, que não prosperam na "terra das oportunidades", merecem o seu destino.
Quem lutou contra injustiças — muitas vezes pagando com a vida — é apagado ou, como no caso de Martin Luther King Jr., reduzido a um clichê banal, congelado no tempo com o seu discurso "I Have a Dream" [Eu Tenho um Sonho]. Movimentos sociais que ampliaram a democracia — abolicionistas, movimento trabalhista, sufragistas, socialistas, comunistas, movimento pelos direitos civis e movimentos anti-guerra — são apagados ou ridicularizados, assim como historiadores como Howard Zinn e Eric Foner, que documentaram essas lutas. O status quo, segundo esse mito, nunca foi desafiado no passado — e não pode sê-lo no presente.
"Preste atenção no que eles ordenam que você esqueça", alertou a poeta Muriel Rukeyser.
O decreto de Trump começa assim:
"Na última década, os estadunidenses testemunharam um esforço concertado para reescrever a nossa história, substituindo fatos por narrativas distorcidas. Esse revisionismo busca manchar os princípios fundadores do país, retratando-os como racistas, sexistas ou opressivos. Em vez de unidade, essa falsificação gera vergonha nacional e ignora o progresso que inspira milhões no mundo."
Autoritários prometem substituir "viés" por "verdade objetiva", mas a sua "verdade" é um culto à religião cívica e aos líderes. Essa religião tem seus locais sagrados: Monte Rushmore, Plymouth Rock, Gettysburg, Independence Hall e Stone Mountain (o monumento aos líderes confederados). Tem os seus rituais: Dia de Ação de Graças, 4 de Julho, Dia dos Presidentes, Dia da Bandeira. É patriarcal, hiperpatriótica e fetichiza a bandeira, a cruz cristã, o exército, as armas e a "civilização ocidental" — um código para a supremacia branca.
Há projetos de lei no Congresso para:
- Esculpir o rosto de Trump no Monte Rushmore
- Transformar o seu aniversário em feriado federal
- Colocar o seu rosto em cédulas de US$ 250
- Renomear o Aeroporto Dulles para "Aeroporto Internacional Donald J.Trump"
- Revogar a 22ª Emenda da Constituição para permitir um terceiro mandato
Como escreve Jason Stanley em "Erasing History: How Fascists Rewrite the Past to Control the Future" [Apagando a História: Como os Fascistas Reescrevem o Passado para Controlar o Futuro”]:
"A educação é a base da cultura política. Autoritários sabem que, para controlá-la, devem primeiro dominar o ensino."
O objetivo, diz ele, é "fragmentar a população em grupos sem entendimento mútuo, impossibilitando a ação coletiva. O resultado é a apatia — deixando o poder nas mãos de autocratas, plutocratas ou teocratas."
Ao mesmo tempo, déspotas mobilizam grupos supostamente agredidos (no caso, brancos) para cometer violência em nome do líder. Os alvos são monumentos que glorificam o passado racista — estátuas de Washington, Colombo, generais confederados e até o jornalista Edward Carmack, que incitou o linchamento da ativista Ida B. Wells.
Monumentos não são "lições de história". São ídolos do culto aos ancestrais brancos, que branqueiam crimes passados para justificar os atuais. Teorias como Critical Race Theory [Teoria Crítica de Raça] expõem essa engenharia racial, mostrando que a hierarquia não é "natural", mas construída.
O decreto de Trump exige a remoção de exposições "divisivas" em museus como o Smithsonian e o Museu Nacional de História Afro-americana, focando apenas em "narrativas inspiradoras". Programas de diversidade e inclusão são atacados como "privilégios ilegítimos", preparando o terreno para uma democracia não-pluralista.
Stanley e Timothy Snyder (autor de "On Tyranny" [Sobre a Tirania]), especialistas em autoritarismo, estão se mudando para o Canadá.
A meta não é ensinar como pensar, mas o que pensar. Escolas se tornam máquinas de doutrinação. Como escreveu Hannah Arendt:
"O totalitarismo substitui talentos por idiotas leais."
Opressores sempre apagam a história dos oprimidos. No passado, era crime ensinar escravizados a ler — para que não soubessem das revoltas de Nat Turner, John Brown ou Harriet Tubman, ou lessem Frederick Douglass. Agora, querem calar investigações sobre o nosso passado, congelando a história para manter o poder.
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