Acadêmicos norte-americanos buscam exílio diante do avanço autoritário de Trump
Repressão à ciência, corte de verba e perseguição política em universidades motivam êxodo de professores dos Estados Unidos rumo o Canadá e Europa
247 – A crescente ofensiva do ex-presidente Donald Trump contra a ciência, a liberdade acadêmica e a diversidade nas universidades norte-americanas está provocando um fenômeno inédito: o exílio acadêmico. Professores e pesquisadores estão deixando os Estados Unidos para continuar suas atividades em ambientes mais seguros, democráticos e favoráveis à produção de conhecimento. A reportagem publicada pelo jornal britânico Financial Times, repercutida pelo portal chinês Guancha, expõe essa nova tendência que vem ganhando força no segundo mandato de Trump.
O professor de filosofia Jason Stanley, de Yale, foi um dos primeiros a tomar essa decisão. Após a Universidade Columbia, conhecida por seu protagonismo em protestos pró-Palestina, ceder às pressões do governo Trump em março, Stanley se transferiu para a Universidade de Toronto, no Canadá, ao lado dos historiadores Timothy Snyder e Marcy Shore. “Acredito na liberdade acadêmica e na defesa das instituições democráticas”, afirmou Stanley ao Financial Times. “Não acho que a resposta correta a ditadores seja se esconder e esperar não ser o próximo.”
Universidades sob ataque - Desde que reassumiu o poder, Donald Trump intensificou sua cruzada ideológica contra as instituições de ensino superior, especialmente aquelas alinhadas a pautas progressistas. O governo cortou verbas, cancelou contratos federais e passou a exigir "autoexames" das universidades. Columbia, por exemplo, perdeu cerca de US$ 400 milhões em recursos federais após liderar manifestações estudantis. A capitulação da reitoria resultou na renúncia do presidente interino da instituição e gerou protestos massivos de docentes e alunos.
As consequências foram imediatas: centenas de universidades apagaram de seus sites oficiais conteúdos relacionados a políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Segundo a imprensa dos EUA, as instituições estão "se rendendo a Trump em velocidade alarmante".
Onda de migração e repressão a estrangeiros - A repressão também atinge estudantes internacionais. Nas últimas semanas, agentes do serviço de imigração prenderam alunos estrangeiros envolvidos em protestos e iniciaram processos de deportação. Paralelamente, Trump nomeou figuras polêmicas como Robert Kennedy Jr., notório por suas posturas antivacina, para cargos estratégicos na área da saúde, gerando forte repúdio entre cientistas.
Tim Quigley, professor da Universidade da Geórgia, aceitou uma proposta da Suíça dias após a posse de Trump. “Todos os freios estavam desativados. Tenho uma filha de 10 anos e não quero viver em um país que se importa mais com Teslas depredadas do que com crianças mortas em escolas”, declarou. Quigley se transferirá para o International Institute for Management Development, em Lausanne.
Europa e Canadá ampliam acolhimento - Frente à debandada acadêmica, instituições europeias e canadenses intensificaram esforços para atrair pesquisadores dos EUA. A Universidade Aix-Marseille, na França, lançou a campanha Safe Place for Science, com € 15 milhões destinados a acolher ao menos 15 cientistas norte-americanos. A iniciativa já recebeu dezenas de candidaturas.
Na Bélgica, a Universidade Livre de Bruxelas criou um canal de apoio a “Pesquisadores de Excelência Sob Ameaça”. Na Suécia, o Conselho de Pesquisa articula fundos extras para receber acadêmicos dos EUA. Até a Escola de Economia de Kiev, na Ucrânia — país em guerra —, divulgou convite público para acolher intelectuais em risco. “O significado disso é evidente”, comentou o Financial Times, observando a ironia de que um país em conflito pode parecer mais seguro do que os EUA para estudiosos.
Janice Stein, reitora fundadora da Munk School of Global Affairs da Universidade de Toronto, reconheceu que só foi possível contratar professores norte-americanos graças ao apoio de filantropos "visionários". Alan Bernstein, diretor de saúde global da Universidade de Oxford, confirmou que recebeu mais de 20 consultas de acadêmicos interessados em se mudar.
Clima de incerteza e paralisia - Cientistas relatam um clima de estagnação nos laboratórios e receio generalizado. “Tudo está paralisado, todos se sentem inseguros”, revelou um pesquisador de Columbia. Uma pesquisa da revista científica Nature revelou que mais de 75% dos pesquisadores nos EUA estão considerando se mudar para países que respeitem a ciência, como Canadá e nações da Europa Ocidental.
O exílio acadêmico, termo até então associado a regimes autoritários do século XX, ressurge agora como realidade nos Estados Unidos do século XXI. O ataque sistemático à liberdade de pensamento, a perseguição a estrangeiros e o desmonte de políticas de inclusão colocam em xeque o papel dos EUA como polo científico mundial.
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